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    Desventuras no Vietnam - Parte III

     

     

    Mesmo sem me sentir completamente disposto, não desisti de fazer o que tinha programado: ir para Sapa, no norte do país, sem aeroporto por perto, acessível por trem (8,5 horas de viagem) e de lá andar cerca de 12km, subindo e descendo montanhas para me hospedar na casa de uma família, passar com eles dois dias e uma noite e retornar, de trem, para Hanói.

    Confesso que me diverti com a diversidade das reações das pessoas quando anunciei que pretendia fazer algo, digamos, menos convencional... Este “passeio” foi decidido no Laos e quando postei no facebook que estava indo para o norte do Vietnam e que ficaria hospedado na casa de uma família que pertencia a uma das diversas etnias minoritárias do país, recebi desde entusiásticas felicitações a avisos para tomar cuidado (??) e, ainda e principalmente, comentários no estilo “pode ser legal, mas não para mim”.

    Antes de mais nada é preciso deixar bem claro que não sou um desbravador do mundo. Tudo o que fiz nesta viagem é feito sistematicamente por milhares de pessoas, inclusive este tipo de experiência e acomodação. A internet está aí para comprovar isso, a poucos cliques. Foi em um fórum do Trip Advisor a respeito de Sapa que me dei conta da existência da Pham, esta vietnamita da etnia Dao Vermelha que passou a diversificar suas receitas (de artesã e pequena agricultura) oferecendo visitas guiadas e hospedagem a turistas um pouco mais ousados. Ao mandar-lhe um e-mail solicitando seus serviços, ela respondeu que já estava ocupada na data que me servia e perguntou-me se eu toparia fazer o tour com sua irmã, que também falava inglês. Fechamos o preço (USD 180,00,  caríssimo para os padrões do país) e ela prometeu que haveria alguém me esperando na estação de trem de Lao Cai, o portão de entrada para Sapa, a apenas 2km da fronteira da China.


    Senhora da etnia Dao Vermelha, cujas mulheres, geralmente, raspam suas sobrancelhas e sempre usam este chapéu.

    Mesmo sabendo que março não era a época em que a região fica mais bonita – os campos de arroz estão no seu auge entre junho e agosto; em março, nada deles – acabei optando pelo norte do país e por esta “aventura” (em detrimento de cidades costeiras e charmosas, que mais combinam com uma viagem de casal).

    Com medo de que minha indisposição piorasse, evitei comer qualquer coisa de diferente antes de pegar o trem, limitando-me a uma sopa e algumas latas de coca-cola. Na cabine do trem havia 6 camas, 3 em cada lado. Por sorte, meu lugar era na primeira cama, o que me permitia sair mais facilmente da cabine, caso precisasse sair correndo para o banheiro. E precisei.

    A viagem não foi nada fácil. Milagrosamente, consegui dormir, mas acordei empapado de suor, mesmo estando sentindo frio quando me deitei. Precisei de usar o banheiro e tanto o “número um” quanto o “número dois” saíam em forma líquida. Cheguei a pensar que fosse desmaiar e acho mesmo que apaguei por alguns poucos segundos. Mas cheguei vivo e um pouco melhor na estação.

    Como combinado, Lý estava me esperando, acompanhada por um motorista que nos conduziu até Sapa (cerca de 45 minutos) onde tomamos café e discutimos se valia a pena arriscar a caminhada. A opção era ir direto de carro para a casa de Pham, onde iria me hospedar. Dei uma de durão e decidi correr o risco da caminhada para desconfiança de Lý. O carro seguiria com a bagagem e eu carregaria apenas a câmera e uma mochila leve com água e algumas frutas. Assim, depois de uma caminhada rápida por Sapa para conhecer a cidade, começamos nossa trilha.

    Tenho que dar o braço a torcer e admitir que foi mais difícil do que eu esperava. Não pela trilha em si, mas pelas minhas condições físicas. As dificuldades – especialmente a distância e o tempo (quase quatro horas de subidas e descidas), durante os quais Lý me perguntou mais de uma vez se eu tinha certeza de que realmente queria continuar ou se preferia pedir para alguém vir nos buscar – fizeram com que o final tivesse um gosto especial de vitória. Depois de passar por alguns vilarejos, cruzando com pessoas de outras etnias, cada uma delas vestida com suas roupas típicas, chegamos até a casa de Pham.


    Ly, minha guia. Ao fundo, os campos de arroz, vazios em março.

    A casa – um pouco isolada do restante da vila, em um morro (mais um!) era simples para os nossos padrões, mas bem melhor que a maioria das da região. Grande parte construída de madeira, mas com paredes de alvenaria, tinha dois pisos.

    Ao centro, a casa em que fiquei hospedado.

    No andar inferior, de terra batida, ficavam o quarto do casal (onde também dormia o bebê), a cozinha, a copa e o banheiro (sim, para o meu alivio, um banheiro bem decente, que foi muito usado por mim!). Eu fui acomodado no andar de cima, em um quarto amplo, com um confortável colchão fazendo as vezes de cama.

    Vista parcial do primeiro piso da casa. Ao fundo, os banheiros. À direita, ficava a cozinha. À esquerda, a mesa onde as refeições eram feitas. 

    Todos da casa ficaram preocupados comigo. Não recusei o almoço que preparam para mim, para não soar como desfeita. O cansaço da longa caminhada em condições físicas longe do ideal somou-se ao cansaço acumulado por dias de viagem e eu pedi para me deitar um pouco. Dei uma boa cochilada e acordei um pouco melhor, mas ainda com o intestino atrapalhado e sem muita disposição.

    O carinho e a preocupação de todos comigo foi comovente. E, seguindo o meu lema de que “quem está na chuva é para se molhar”, deixei-me ser cuidado por eles. Por “deixei-me ser cuidado” entenda-se: a) deitei apenas de cuecas em um tapete onde esfoliaram o meu corpo inteiro com um sachê de pano que continha ovo cozido quente, algumas ervas e um utensílio de prata, após o que me senti um pouco revigorado; b) aceitei receber soro na veia, em casa, apenas me certificando que a agulha era descartável; c) alimentei-me bem melhor no jantar, comendo de tudo que eles comiam.


    Foto da mesa do jantar preparado para mim, mas que contou com muitos convidados.

    Ao jantar, por sinal, outros familiares próximos compareceram e eu era, evidentemente, o centro das atenções. As famílias de Pham e de Ly (maridos e filhos), um irmão e a madrasta (segunda mulher do pai delas, já falecido), que trabalhava no posto de saúde mais próximo e que foi quem me aplicou o soro.

    Acordei bem melhor no dia seguinte, muito embora não me dispus a pegar outra trilha (como o planejado inicialmente). Preferi ficar “em casa” e só aceitei fazer uma pequena caminhada até um “spa” local, onde tomei um banho de ervas no ofurô, usado, segundo Pham, principalmente pelas mulheres grávidas, prestes a dar luz.


    No ofurô, quase que totalmente recuperado

    Muitos podem duvidar do que eu vou falar, mas agradeço por ter passado por este perrengue e sido cuidado lá naquele fim de mundo, por pessoas que realmente estavam preocupadas comigo. Não senti medo em nenhum momento e acho que teria sido muito pior se eu estivesse sozinho no hotel de uma cidade grande como Hanói. Isso tudo sem falar que ao retornar recebi um e-mail de Pham perguntando como eu estava, carinho que não tem preço!

    Em tempo: não é preciso se hospedar como eu me hospedei para conhecer a vila da etnia Dao Vermelha. Diversas pessoas chegam até ela de carro, tiram algumas fotos, compram alguns artesanatos e vão embora, como se pode ver da foto abaixo. Eu é que quis viver a experiência.



    Escrito por Bruno Rabello às 18h32
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    Desventuras no Vietnam - Parte II

     

    Já no meu segundo dia de Vietnam, parti para o que prometia ser o ponto alto da viagem, o lugar que mais ansiava conhecer: a Baía de Halong, eleita uma das sete maravilhas da natureza (veja AQUI a lista na Wikipedia, em que o Brasil aparece 2 vezes!). As opções de cruzeiro por Halong Bay são inúmeras. Durante a viagem, conversando com pessoas que haviam estado no Vietnam, fui aconselhado a pegar um pacote de 2dias/1noite, ao invés do pacote 3dias/2noites que cogitava. Para não correr riscos, escolhi uma excursão que estava entre as mais caras (USD 251,00), a Pelican (site aqui).

    Apanharam-me no hotel por volta de 8:30 para uma cansativa viagem de 4 horas até o píer, onde pegaríamos o barco. Ficava claro, desde já, que os 2 dias prometidos seriam, na realidade, uma tarde a manhã do outro dia. O barco era surpreendentemente bom. Cabine confortável, espaçosa, com vista.

    Já o clima, infelizmente, não ajudou! O sol não deu às caras e uma forte neblina tentava, sem muito sucesso, enfeiar o lugar. Mas as fotos foram mais prejudicadas do que a impressão real. A Baía é realmente majestosa, bem maior do que eu imaginava, mais de 1.500km2 de mar, de onde emergem mais de 2.000 formações rochosas, muitas delas com grutas e cavernas. 

    Talvez por ser um cruzeiro mais caro, foi o programa em que mais tive dificuldade de me enturmar. O barco tinha cerca de 35 passageiros. Um grande grupo de suíços sexagenários e septuagnérios. 3 casais de franceses, todos na faixa dos cinquenta e poucos. Um casal de alemães. Um jovem casal argentino, em lua-de-mel e foram justamente os argentinos que me convidaram para se sentar em sua mesa no jantar e com quem eu mais conversei.

    As refeições pareciam estar à altura do prometido. Um delicioso almoço de 4 cursos, quase todos à base de frutos do mar. Um agradável happy hour seguido por aula prática de rolinhos de primavera. E um jantar, estilo buffet, em que os frutos do mar eram grelhados ao lado de fora do salão.


    Escrevi que pareciam, não é... Pois bem, na manhã seguinte, percebi que muita gente sequer apareceu para o café-da-manhã ou para fazer o passeio programado (entre estes, os meus amigos argentinos). Foi quando me perguntaram se eu não havia me sentido mal. Tinha tido um certo desconforto no banheiro, mas nada de anormal. Tomei o café-da-manhã normalmente e saí para o passeio do dia, que era uma visita à grandiosa Sung Sot Cave (ou Gruta Surpresa), localizada em uma destas enormes pedras que emergem da Baía.

    Ao voltar, percebi que a situação no barco estava complicada. Um grupo de médicos e enfermeiras foi trazido e prestou assistência aos que estavam mais debilitados. Foi quando vi que meus amigos argentinos estavam entre os piores e que seriam levado ao hospital (o que lhes faria perder a viagem para Sapa, naquela mesma noite).

    Com alguns poucos corajosos, ainda almocei no barco antes de sair e pegar a van de volta. Comigo, apenas o casal de alemães, ela bastante ruim, ele sem sintoma algum. Meus planos incluíam quase nove horas de trem para o norte do país. Não me sentia (muito) mal, mas também estava bem longe de estar em ótimas condições. Eu que havia passado com louvor pelo teste das comidas de rua no Laos, comecei a recear pelo que me esperava. Isso depois da minha refeição mais cara de toda a viagem.



    Escrito por Bruno Rabello às 23h43
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    Laos, parte III: aula de culinária

    Voltei do aeroporto para o mesmo hotel, já que sabia que o quarto em que tinha ficado estava disponível (motivo pelo qual me deixaram fazer o late check-out). Imediatamente, corri para o restaurante Tamarind, na esperança de conseguir uma vaga para a aula de culinária no dia seguinte. A turma já estava cheia, mas o dono me disse para voltar na manhã seguinte, pois 3 pessoas ainda não haviam pagado pela aula, o que me dava algumas chances.

    Antes de chegar no Tamarind, contudo, tive que passar no consulado do Vietnam, onde deixei meu passaporte e paguei uma taxa de urgência para o visto sair no mesmo dia (USD 75,00!). Para a minha sorte, faltaram duas pessoas e consegui fazer a aula.

    A aula não aconteceu no restaurante, mas em um lindo casarão de campo, a poucos minutos da cidade. Quem a ministrou foi um rapaz local, bastante divertido, que conquistou o eclético grupo: um casal de australianos com a filha universitária, dois casais de franceses, duas americanas e um sueco que, como eu, viajavam sozinhos. No caminho, paramos no mercado da cidade para comprar e aprender sobre alguns ingredientes, principalmente ervas e temperos.


    Na aula, todo mundo pôs a mão na massa, o tempo todo:

    O ingrediente onipresente nas minhas refeições no Laos foi o capim-limão (eles usam bastante coentro, ingrediente que detestava, mas aprendi a suportar) e o prato carro-chefe do restaurante é justamente um capim limão recheado, bem interessante. O ramo do capim limão, da espessura de um alho porró dos mais finos, é desfiado no meio, mantendo-se as extremidades intactas. Uma vez desfiado, ele fica parecendo uma mola, que possibilita recheá-lo (usamos frango e temperos). Feito isso, lambuzamos tudo em ovo antes de levar ao óleo bem quente para fazer a casquinha. Um molho de amendoim dava o toque final: 

    Não fosse o meu dia “extra” em Luang Prabang, não teria visitado nenhum dos diversos monastérios da cidade. Assim, graças ao meu descuido com o visto, ainda tive tempo de conhecer o Wat Xieng Thong, o mais famoso, também conhecido como Monastério da Cidade Dourada (Golden City Monastery). Tem como não ficar agradecido pelo fato de o Vietnam ser burocrático e não permitir visto na chegada? 



    Escrito por Bruno Rabello às 16h25
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    Laos, parte II: Luang Prabang, Royal Museum, Ronda das Almas, Mekong, Pak Ou

     

    Meu hotel era bem próximo ao The Royal Palace Museum, construído no início do século XX, quando o Laos era colônia francesa para ser a residência da família real. O estilo arquitetônico combina referências asiáticas e européias e entre suas atrações, destaque para a galeria do trono, cujas paredes são decoradas com azulejos de vidro formando lindo mosaicos e para um Buda de ouro, prata e bronze tido como esculpido no século I. Os horários de visitação não são os mais convenientes (fecha entre 11:00 e 13:30 para almoço e encerra as atividades às 16:00), mas vale a visita. Para o bem e para o não tão bem assim, esse é o ritmo do Laos que, acreditem, ajuda a fazer mais encantadora a cidade. É um lugar para ser visitado com calma, para deixar espaços de folga (leia-se: sem nenhuma atividade programada) para simplesmente andar de bicicleta ou caminhar por suas ruas de trânsito tranqüilo (coisa que infelizmente eu não fiz, já que só dispunha de míseros 3 dias).

    Talvez por conta disso, senti-me à vontade para uma incursão meio que às cegas na gastronomia de rua local. Em algumas das transversais da rua principal, aquela em que ficam os artesãos e onde comprei lindos lenços de seda para a Vânia e algumas encantadoras roupinhas típicas de bebê, há várias barracas de comida. Por um preço irrisório (10.000kip, equivalente a R$ 2,65), o comensal pode encher um prato com tudo o que nele couber. Eu jamais comeria algo parecido no Brasil, mas vendo todos os europeus se fartando daquilo, resolvi “entrar na dança” e encarar aquela orgia da baixíssima gastronomia, escolhendo as porções pela aparência, sem muitas vezes nem saber direito o que era (nada de espetinhos de insetos e aracnídeos como a gente vê em reportagens sobre a China). Em média, posso garantir, tudo era bem gostoso e descia fácil com uma garrafa da cerveja local. O melhor e mais surpreendente: estar inteiraço e bem disposto para encarar o dia seguinte, que prometia ser corrido.

    Um dos programas mais concorridos de Luang Prabang é acordar bem cedo para participar do ritual da Ronda das Almas (em inglês, Alms Giving Ceremony), que acontece todas as manhãs, às 06:00 horas. Os habitantes da cidade e os turistas se acomodam na calçada para oferecer alimentos aos monges que em fila indiana e em silêncio caminham pela rua principal. Dizem que eles se alimentam somente daquilo que lhes é ofertado durante esta procissão, que caiu nas graças dos turistas. Como não poderia deixar de ser, há pessoas que ganham dinheiro vendendo aos turistas as oferendas (o arroz empapado, frutas, pães). Isso, no entanto, não tira o brilho e a emoção da cerimônia, acompanhada com respeito e silêncio na maior parte do tempo, salvo a inconveniência de alguns fotógrafos mais afoitos e seus flashes. Fiquei realmente tocado e surpreso com a grande quantidade de monges crianças.

    No que era para ser a minha última manhã em Luang Prabang, escolhi fazer o passeio para as grutas de Pak Ou para ter a oportunidade de andar de barco pelo Mekong. Lendo as críticas no TripAdvisor, vi muita gente reclamando, dizendo que era um desperdício de tempo. Alinho-me mais com os que acharam um bom programa. É verdade que o trajeto de barco é um pouco demorado (quase duas horas para subir o rio e pouco mais de uma hora para voltar), mas não chega a cansar. A paisagem é interessante e é sempre bom lembrar que o mítico rio Mekong atravessa 7 países, tendo importância fundamental para toda a Indochina. São duas grutas, uma mais embaixo e uma mais no alto, que são uma das atrações religiosas mais visitadas por quem está em Luang Prabang. Situadas na beira do Mekong, encravadas em uma falésia, cada uma delas contem várias estatuetas de Buda que, na falta de iluminação do local, só são visíveis quando os flashes espocam ou quando algum outro turista acende uma lanterna. Estas, por ficarem perto da entrada, são mais fáceis de ser vistas:


    Cheguei de volta ao hotel mais de uma hora depois do horário que deveria ter desocupado o quarto (o que foi levado numa boa pelo proprietário). Ainda assim, tomei um bom banho e saí para uma última volta, deixando as malas na recepção até o horário da minha partida para o aeroporto. Parei para almoçar no restaurante Tamarind, um dos vários (mas certamente um dos mais bonitos) que oferecem aulas de culinária laociana.  Deliciei-me com os pratos inventivos e saborosos e tomei litros de um delicioso suco de tamarindo (sorvido por canudos de bambu, que comprei para usar aqui!):


    Depois do almoço, mesmo cansado e de barriga cheia, reuni forças para subir os 355 degraus do Monte Phousi, de onde se tem uma ótima visão da cidade e dos rios que a emolduram. Precisa de fôlego para chegar lá em cima, mas em dias claros a vista compensa e é a melhor forma de ver e compreender a geografia da cidade:


    Fui para o aeroporto melancólico por deixar Luang Prabang tão cedo, sem ter feito tudo o que gostaria. Na hora do check-in, a atende me pergunta sobre o meu visto para o Vietnam e eu lhe respondo que iria tirar o  visa-on-arrival” (como fiz na chegada ao Camboja e no Laos). Ela diz que não se pode, no Vietnam, obter visto no desembarque e remarca meu vôo para o final da tarde do dia seguinte, dizendo que eu deveria procurar o consulado vietnamita na manhã seguinte para obter o meu visto. Mesmo com o prejuízo (perdi a noite de hotel em Hanói, paguei uma taxa de remarcação de USD 50,00 e teria que pagar uma taxa de urgência para o visto sair no mesmo dia), estava feliz por “ganhar” mais uma noite em Luang Prabang.



    Escrito por Bruno Rabello às 09h07
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    Laos, parte I: Luang Prabang, treinamento de mahout e Kuang Si Falls

    Resolvi incluir o Laos em meu roteiro, na última hora, advertido de que era um lugar mais autêntico do que os manjados Vietnam e Camboja. Assim como no Camboja, o visto é obtido na chegada, no aeroporto e por isso, levar fotos (3x4 ou 5x7) é necessário.

    A adorável Luang Prabang se localiza na confluência entre os rios Nam Khan e o mítico Mekong. Em comparação com Siem Reap, de onde eu estava vindo, é bem menor e acolhedora. O que mais chama a atenção é a gentileza das pessoas, especialmente dos vendedores. O assédio um tanto agressivo que me incomodou no Camboja não se repetia ali. Andar pelas tendas armadas no Mercado Noturno (Night Market) e examinar as opções de compras era sempre prazeroso e tranqüilo. A simpática saudação dos vendedores – sabadii – quase nunca era acompanhada daquela insistência irritante.

    O ritmo ali também era outro. As ruas tranqüilas, com poucos carros e muitas bicicletas (inclusive para alugar), a fusão entre a arquitetura tradicional do Laos e a arquitetura européia – responsável por fazer do lugar um Patrimônio Histórico da Humanidade segundo a UNESCO (veja mais AQUI) –, o pequeno tamanho da cidade (menos de 50.000 habitantes), os mosteiros budistas e os monges em suas vestes cor de açafrão, os rios que a cercam, tudo ali colaborava para fazer o passeio ficar agradável.

    Cheguei lá no final da tarde, hospedei-me no hotel (Villa Meuang Lao, ótima localização, básico, wi-fi, sem café da manhã, diária USD 40,00, permissão para late check-out) e fui andar pela rua principal, onde todas as noites se monta o Mercado Noturno. Há várias agências de viagem vendendo passeios e o que despertou meu interesse imediato foi o curso de mahout (“adestrador de elefantes”). Havia a opção de fazer o curso de 1 ou de 2 dias e acabei escolhendo o primeiro, que foi o suficiente.

    Paguei USD 75,00 pelo curso (na All Lao) e no preço estava incluído o almoço e o transporte até o campo de treinamento. Foi um dos programas mais divertidos que já fiz e o grupo era ótimo e heterogêneo. O Laos ficou conhecido como o “país de um milhão de elefantes”, mas me informaramo que hoje existem cerca de 1.000 domesticados e apenas 600 selvagens. No campo havia aproximadamente 15 elefantes, de variados tamanhos e idades.


    Familiarizando com os elefantes

    Após uma pequena aula teórica, em que nos foram passadas informações e comandos de voz básicos, estávamos todos ansiosos para o passeio. Eu que pensava que o curso era apenas um pretexto para dar uma voltinha de elefante,  acabei sendo surpreendido positivamente. Não apenas andamos muito mais do que eu imaginava, como também subimos e descemos morros íngremes (ao ponto de sentir um pouquinho de vertigem).

    Comecei o trajeto acomodado naquela estrutura de madeira, nas costas de um elefante macho, de 13 anos de idade (o mais novo de todos) e com o meu instrutor sentado no pescoço do animal. Pouco tempo depois de iniciado o passeio, no entanto, o instrutor perguntou-me se eu queria ir no lugar dele e, sem descer do elefante, passei a montá-lo em pêlo e a comandá-lo com as pernas e com os comandos que havíamos aprendido. Um pouco desconfortável, é verdade, mas também bastante divertido.


    O "uniforme" é fornecido pelo campo.

    Depois de um gostoso almoço, nova “cavalgada” (desta vez em cima de uma fêmea de mais ou menos 30 anos de idade) que terminou dentro do rio, com os elefantes aparentemente se divertindo bastante, mergulhando (com os “aprendizes” montados em cima), enchendo a tromba d’água e esguichando em cima da gente. Uma experiência deliciosa, da qual nunca me esquecerei!

    No dia seguinte, na mesma agência, comprei o passeio para as cachoeiras de Kuang Si, que ficam a cerca de uma hora de van de Luang Prabang. Outra ótima surpresa, uma grande queda d’água e outras menores com verdadeiras piscinas naturais entre elas. Cor da água incrível, temperatura ideal, cordas para brincar de Tarzan:


     

    Antes de chegar nas quedas d’água, mas já dentro do Parque em que elas se situam, existe um centro de resgate de ursos, com 23 ursos pretos asiáticos. Esta espécie de urso, de pequeno porte, é vítima de tráfego de animais silvestres e os animais desta reserva foram apreendidos e hoje, sem condições de voltar à vida selvagem (provavelmente foram vítimas de traficantes quando ainda bebês), são mantidos ali, em viveiros cercados por telas.

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    O urso negro asiático, no Centro de Resgate de Kuang Si



    Escrito por Bruno Rabello às 08h54
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    Camboja, Parte II: Museus, Angkor Thom, Ta Prohm, Banteay Srei

    No dia seguinte, fui ao Angkor National Museum, ótimo programa para se inteirar um pouco mais sobre a história de Angkor Wat e sobre a civilização khmer. Ótima introdução para os templos e que, uma vez visitada com calma e atenção, faz com que as visitas subseqüentes se tornem mais proveitosas e interessantes. O grande destaque é a Galeria dos 1000 Budas que, como o nome denuncia, conta com mais de mil imagens de Buda. Curiosamente, nenhuma do Buda gordo que estamos acostumados a ver. Todos os Budas são esbeltos, muitos estão sentados em uma serpente, alguns deitados. Indaguei a respeito e fui informado de que o Buda gordo é chinês e que lá (como no Laos), ele não é popular.


    Galeria dos 1000 Budas, no Museu Nacional de Angkor. É proibido tirar fotos nesta sala. Imagem obtida na internet

    Já o Cambodia Landmine Museum (Museu das Minas Terrestres) vale uma visita rápida. A história de seu fundador, Aki Ra é tocante. Ainda criança, foi recrutado pelo Khmer Vermelho e esteve anos na luta armada e preparando as minas terrestres que deixaram uma multidão de inválidos por todo o país (o Camboja é um dos lugares do mundo com o maior número de minas terrestres). Encerrado o conflito, ele passou a peregrinar pelo interior do país para, manualmente e colocando sua vida em risco, desarmar estas bombas. Paralelamente a isso, acolhia crianças mutiladas cujas famílias paupérrimas não podiam dar a devida assistência e as criava junto com as suas. O Museu também funciona como uma escola para crianças órfãs ou feridas. A preço do ingresso é irrisório e o acervo do museu não é significativo. Mas como ele fica no caminho de um dos mais belos templos de Siem Reap – o Banteay Srei – uma parada por lá, no caminho, deve ser considerada.

    Deslumbrar-me com a grandeza de Angkor Wat não foi nenhuma surpresa. Surpresa, das mais gratas, foi descobrir que as outras ruínas do complexo eram também impressionantes, imperdíveis e únicas. Imaginava, ignorante que era e continuo sendo, que as menos famosas seriam apenas apêndices em menor escala do atrativo maior. Não poderia estar mais enganado.

    Angkor Thom, com suas largas torres com quatro faces esculpidas – uma para cada direção – é um deslumbre. Acredita-se que funcionou como capital do Império até o século XVII. Em seu centro, encontra-se o Bayon, complexa e enigmática edificação formada por várias torres com faces esculpidas.


    As torres com faces esculpidas de Angkor Thom

    Como disse no post anterior, o guia sugere poses inusitadas para fotos.

    Ta Prohm é uma das construções mais misteriosas e tornou-se popular após servir de cenário para o filme Tomb Raider, estrelado por Angelina Jolie. Sua restauração buscou preservar a selva densa que invadiu o local, especialmente as árvores cujas raízes mais se parecem tentáculos engolindo as paredes. O resultado é fabuloso:


    Banteay Srei, erguido no século X por sacerdotes hindus é o mais afastado dos templos que visitei (foi no trajeto para lá que visitei o Museu das Minas Terrestres) e se destaca pelos refinados entalhes feitos no arenito rosado, o que acabou fazendo com que ficasse conhecido como Cidadela das Mulheres.

    Banteay Srei, diferente dos demais não apenas na cor das pedras, mas na delicadeza das esculturas e dos entalhes

    Detalhes dos entalhes em Banteay Srei

    Minha estada em Siem Reap não foi feita apenas de visitas a ruínas e museus. Em uma das noites, fui conferir o Phare, espetáculo do Circo do Camboja que vem ganhando reputação e que realiza um belo trabalho social. Nada que chegue aos pés de um Cirque de Soleil, mas artistas talentosos, encenando uma história popular com bastante entusiasmo. Bom programa para antes do jantar. Também tirei uma tarde para andar de quadriciclo pela zona rural, o que foi bem interessante, a despeito da poeirada da estrada. Impossível não usar as máscaras de pano, mas mais impossível ainda não se comover com as dezenas de crianças acenando no caminho.

    Dicas que podem ser úteis:

    a) Planeje racionalmente seus deslocamentos. Por falta de planejamento, o passe de três dias que comprei foi insuficiente e acabei sendo obrigado a comprar um novo passe para o último dia. Angkor Thom e Ta Prohm são bem próximos um do outro e podem ser visitados em seguida a Angkor Wat. Recomendo bastante ver o sol nascer lá. Banteay Srei é mais afastado – quase 50 minutos de tuk-tuk de Siem Reap – e, caso haja interesse em visitar o Museu das Minas Terrestres, estas visitas devem ser combinadas.

    b) Ao contrário do que aconteceu quando da minha primeira visita a Angkor Wat, não havia guias disponíveis nas entradas dos demais templos, o que me obrigou a visitá-los sozinho e, lado bom das coisas, me fez retornar a Angkor Thom e Ta Prohm com guia. Pedir para o hotel conseguir um guia antecipadamente é um bom negócio.

    c) Todos os deslocamentos foram feitos na base do tuk-tuk, espécie de charrete puxada por moto. É bem barato e mesmo assim dá para negociar. 



    Escrito por Bruno Rabello às 14h52
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    Siem Reap, Camboja, Angkor Wat

     

    Há muito tempo, o Sudeste Asiático encabeçava minha lista particular de viagens dos sonhos. Desde 2006 tenho o guia visual da Folha sobre o Vietnam e Angkor Wat e volta e meia flertava com ele. A previsão do nascimento da minha filha para o final de maio/início de junho fez com que eu finalmente decidisse por realizar este sonho, convencido de que seria agora ou daqui a muito tempo. Quando comprei a passagem, cheguei a acreditar que a Vânia pudesse me acompanhar (ela estaria entre a 27a e a 30a semana de gravidez), mas quando vimos que isso não seria nada fácil, decidi, com o seu aval, que iria sozinho.

    A história recente do Camboja, minha primeira parada, é muito triste e sofrida. Fazia parte (junto com o Laos e o Vietnam) da Indochina, colonizada pela França. Ao tornar-se independente, em 1953, estabeleceu-se como uma monarquia constitucional até 1970, quando o rei foi deposto por um golpe militar, avalizado pelos EUA. O novo regime exigiu que os comunistas vietnamitas – que até então utilizavam o país como uma rota de abastecimento de armas, durante a guerra – se retirassem do país, o que acabou sendo uma das causas da guerra civil que tomou conta do país e terminou por levar ao poder o Khmer Vermelho, sob a liderança do sanguinário Pol Pot. De inspiração maoísta, o regime do Khmer Vermelho evacuou cidades, forçando a população a se mudar para o campo, na tentativa de reconstruir o modelo de agricultura do país nos moldes do século XI, rejeitando tudo aquilo que pudesse ser considerado como influência ocidental.

    Estima-se que entre 1 e 3 milhões de cambojanos foram mortos no breve tempo (1975-1978, quando tropas do Vietnam invadiram o país) em que Pol Pot governou o país. Conheci a história pelo cinema, com o filme Gritos do Silêncio (The Killing Fields), de 1984, que ganhou 3 Oscars (inclusive de ator coadjuvante) e foi indicado para outros 4 (inclusive melhor). Os Khmer Vermelhos continuaram na luta armada até os anos 90, quando teve início um processo de democratização conduzido pela ONU.

    O turismo é hoje a 2a indústria mais importante do país (depois da têxtil), com fortíssimo crescimento anual. Para se ter uma idéia, em 2002 o país recebeu 786.000 turistas. Em 2012, foram 3.584.000 visitantes, um crescimento espantoso!

    Siem Reap é a cidade que serve de base para quem quer visitar as ruínas de Angkor Wat, o maior monumento religioso do mundo e a principal atração turística do Camboja. A cidade é bem maior do que eu imaginava e abriga hotéis de todos os tipos e para todos os bolsos, atendendo desde mochileiros a milionários. Chega a ser curioso ver outdoors anunciando campos de golfe e resorts por lá.

    Talvez porque o o número de turistas é impressionante (na minha primeira tarde em Angkor Wat, poderia apostar que havia lá, naquele dia, mais turistas que em todo o Brasil), talvez porque a cidade é maior do que eu esperava, não chega a ser charmosa. O assédio dos vendedores, motoristas de tuk-tuk, massagistas, hostess de restaurantes e até de cafetões incomoda um pouco, mas nada me fez sentir ameaçado ou inseguro. Na Pub Street concentram-se a maioria dos bares e restaurantes e é para lá que os turistas se dirigem todas as noites. Nas ruas paralelas ou transversais e possível escolher lugares mais tranquilos e menos barulhentos. É lá também que se encontram diversos tanques onde se pode fazer a fish massage. Eu, é claro, não resisti:

    Ao contrário do que esperava, a culinária do Camboja não se caracteriza por ser picante. São vários restaurantes oferecendo a cozinha khmer, cujo prato principal, o amok, que leva peixe e leite de côco e me era servido dentro do próprio côco, é muito gostoso.

    O motorista de taxi que me levou do aeroporto para o hotel (Borann – L’Auberge des Temples, USD 147 por 3 noites, um pouco afastado da muvuca da Pub Street, limpo, básico, wi-fi, bom café-da-manhã e com uma providencial piscina para ajudar a se refrescar quando da chegada dos passeios) ofereceu-se para ser o meu transporte regular durante todos os dias da minha estada, sugerindo (quase impondo) a programação de cada dia. Eu, para sua desolação, resolvi ficar com ele somente na tarde da minha chegada e, nos dias seguintes, explorar por conta própria as demais ruínas.

    Mesmo cansado, pedi-lhe para me levar para Angkor Wat logo após fazer o check-in e tomar um bom banho. No caminho comprei ingresso que me dava direito a 3 dias nos templos e ruínas por USD 40 e na entrada contratei um jovem que se ofereceu de guia para me acompanhar. Fazer o tour guiado me parece essencial se você não é um expert em arquitetura ou história khmer. Claro que é possível maravilhar-se com aquelas ruínas sem saber de nada, mas o guia, além de valorizar cada galeria e de chamar sua atenção para detalhes que passariam despercebidos, conhece os melhores ângulos para fotos. E, para mim que viajava sozinho, exercia o papel de personal photographer. A seguir, fotos tiradas nas galerias interiores de Angkor Wat, que dão uma idéia aproximada de sua grandeza:

    Angkor Wat foi construída na primeira metade do século XII para ser a capital do Império Khmer e também um templo dedicado a Vishnu (Deus Supremo do hinduísmo). Posteriormente, tornou-se um templo budista (quando esta religião passou a ser a religião de toda a região). É o maior orgulho do Camboja e estampa sua bandeira. Considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, os entalhes e baixo relevos insculpidos em suas paredes são impressionantes assim como as torres em forma de cogumelos e a imensidão de todo o complexo. Na foto seguinte, detalhes de algumas das cerca de 1.800 Apsaras (ninfas da mitologia hindu) que existem em Angkor Wat. Disseram-me que cada uma delas tem um chapéu diferente...

    Vale mais do que uma única visita tanto que, em meu último dia em Siem Reap, amanheci lá para ver, junto a uma multidão de turistas, o sol nascer por detrás das torres. Precisa dizer que foi inesquecível?


    Nascer do sol em Angkor Wat, o único dos templos do complexo que está voltado para o Oeste, na direção do sol poente.



    Escrito por Bruno Rabello às 16h39
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    México: X-Caret, golfinhos, Cozumel e um iPhone no fundo do mar

    Para snorkel ou mergulho, o programa é ir para Cozumel, ilha tida como o paraíso para este tipo de atividade. Do píer de Playa del Carmen partem barcos para Cozumel a toda hora (trajeto: 40 minutos) e os passeios são oferecidos tanto em um lugar quanto em outro (várias opções). Como estava com a Vânia e os meus pais e não tinha como deixá-los "sozinhos", acabei não mergulhando de cilindro e optamos por fazer um tour que compreendia 3 paradas para snorkel.

    Antes do passeio, fui atraído por um anúncio de um recipiente para iPhone que permitiria tirar fotos embaixo d’água. Era um invólucro de plástico, com vedação e uma corda para se amarrar no pescoço. Fui aconselhado a deixar um pouco de ar antes de fechá-lo, de modo que o aparelho flutuaria se eu soltasse a corda. Na prática, entretanto, o touch screen era difícil de manusear e acabei esvaziando o ar. Aturdido, sem saber se curtia os peixes que se aglomeravam ao meu redor para comer as tortilhas ou se tirava fotos, acabei soltando a corda e, quando vi, meu iPhoneafundava rapidamente, sem que eu tivesse fôlego para tentar recuperá-lo. O pessoal do barco ainda tentou mergulhar e procura-lo, sem sucesso.

    Duas horas depois, na barca que voltava para Playa del Carmen, ainda lamentando a perda do meu iPhone (e principalmente de tudo que tinha dentro dele), a Vânia recebe uma mensagem dizendo que tinham achado meu telefone no fundo do mar. Logo em seguida, outra. O inacreditável aconteceu: uma instrutora de mergulho canadense, que mergulhava com cilindro, encontrou-o, no meio de um recife, a 15 metros de profundidade. O telefone ainda tinha bateria, não estava protegido por senha (o que foi a minha sorte) e ela abriu o aplicativo do facebook e escreveu em meu perfil dizendo que havia achado o telefone. Conseguir entrar em contato com ela e na manhã seguinte peguei a primeira barca para Cozumel para recuperar, intacto, o telefone!

     

    Na Riviera Maia – como é chamado o pedaço da costa mexicana em que se situa Playa del Carmen, não faltam opções de lazer. Uma das principais é o X-Caret, enorme complexo que compreende zoológico, parque aquático, praia, rio, restaurantes e apresentações artísticas. Há variadas opções de ingressos, mas o mais vantajoso é comprar aquele que inclui uma refeição (buffet, self-service).

    A maior parte das pessoas, ao entrar no parque, escolhe atravessá-lo nadando pelo rio subterrâneo (artificial). Veste-se coletes salva-vidas, calça-se nadadeiras, despacha-se as mochilas e tudo aquilo que se pretende utilizar no resto do dia (o que não for usar é guardado em armários lá em cima mesmo) e deixa-se levar pela correnteza. Particularmente, achei meio entediante: nada para se ver com o snorkel e apenas uma maneira de se evitar andar um longo trecho tanto na ida quanto na volta.

    Foi lá que cometi o pecadilho de pagar para nadar com golfinhos (vide post anterior), experiência que por mais reprovável que seja (e eu acredito que é), foi deliciosa.

     

    Poucos minutos depois de entrarmos no braço de mar em que pudemos nadar com os golfinhos, mamãe se deu conta de que sua aliança de brilhantes e o aparador que ela usava haviam saído de seus dedos e afundado (não me perguntem o porquê dela estar usando aliança de brilhantes na praia!). Estávamos em um grupo e quando o instrutor percebeu que eu me afastava para tentar mergulhar e encontrar suas jóias ele me aconselhou a relaxar e aproveitar a experiência, prometendo-nos que no final ele mesmo iria mergulhar e procurá-las. Depois do quase milagre do iPhone, achei que as chances seriam mínimas, mas inacreditavelmente ele cumpriu o prometido e recuperou as jóias para a felicidade da mamãe.  

     

    Não tivemos tempo nem energia para conhecer Cancun ou Tulum (sitio arqueológico maia, na beira do mar). O tempo disponível era pouco e preferimos curtir a praia do hotel por mais dois dias. E, quem sabe, ter bons motivos para voltar à linda Riviera Maia.

     

     



    Escrito por Bruno Rabello às 11h15
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    México: praia, pirâmide e aventura

    É com um pingo de constrangimento que eu assumo que a paternidade por vir já está começando a me fazer pagar língua. Ir para Miami fazer enxoval de bebê é coisa que sempre achei exagerada e jamais tinha passado pela minha cabeça que seria capaz de fazer (continuo apostando que vou conseguir evitar férias em resorts, fins-de-semana em hotéis-fazenda, almoços em restaurantes com espaço infantil e festas-de-criança semana sim, outra também).

    Depois de constatar que os preços são realmente muito convidativos (a ponto de fazer valer o preço das passagens) e, principalmente, por contar com o apoio sempre fundamental dos futuros avós paternos da minha filha (leia-se: papai e mamãe), que se dispuseram não só a nos acompanhar (o que evitaria taxas por excessos de bagagem), como também a subsidiar a viagem, decidi encarar mais uma viagem, às pressas, logo antes das minhas férias, programadas com tanta antecedência.

    Pequeno parêntesis: quem só me acompanha pelo blog, deve achar que não trabalho e que apenas viajo. Pelo menos até ganhar na mega-sena, não é assim que vivo. Tenho a sorte de possuir um cargo que me permite 25 dias úteis de férias por ano, tenho créditos acumulados pelos anos que não gozei de tantos dias e, finalmente, priorizo o prazer de viajar em detrimento de tantas outras coisas, como, por exemplo, manter carros novos na garagem. Deu para entender ou vou ter que desenhar?

    Como tínhamos estados em Miami há pouco mais de um ano, porque não aproveitar as facilidades da internet, comprar tudo online e aproveitar para conhecer outros lugares? Daí que surgiu a idéia de passar antes pelo México, país que nenhum de nós conhecíamos.

    Escolhi Playa del Carmen, que fica a cerca de 50km da badalada Cancun e que, tem em comum com esta, apenas a beleza do mar. Pesquisando, li que Playa estava para Búzios assim como Cancun estava para a Barra da Tijuca e esta boutade foi o suficiente para me convencer. Melhor explicando: se em Cancun predominam os megaempreendimentos hoteleiros (com os indefectíveis pacotes all inclusive) e grandes shopping centers, em Playa os hotéis são pequenos e o programa é bater perna na 5a Avenida, a Rua das Pedras de lá (com calçamento regular e fácil de andar, vale o registro), com suas inúmeras lojas, bares e restaurantes.

    Ficamos em um hotel simples, confortável, ao qual se entra pela praia, pisando literalmente na areia. Não havia avenida, rua ou viela separando-o daquele mar com mais de 50 tons de azul. Uma curtição tomar café da manhã em mesas postas em cima da areia e ficar estirado nas espreguiçadeiras do hotel, a centímetros da água.


    Vista do hotel

    Vista do mar

    Mas nem só de sombra e margaritas foram aqueles dias no México. Tivemos que nos afastar da praia para conhecer as ruínas de Chichén Itzá, cidade pré-colombiana construída pelos maias. É uma viagem longa (2,5 horas para ir e 2,5 para voltar; combinamos com um motorista de taxi para nos levar e buscar e pagamos USD 100,00 para ele ficar o dia inteiro à nossa disposição), mas um passeio absolutamente imperdível, que merece ser feito com um guia oficial (contratado lá, na hora), que contará detalhes fascinantes do lugar, recentemente escolhido como uma das sete maravilhas do mundo moderno.

    Ainda neste dia, depois de Chichén Itzá, visitamos um dos milhares de cenotes que existem na região da Penínula de Yucatán (estima-se que sejam cerca de 7000). Os cenotes são um fenômeno natural que consistem em grandes e largos buracos circulares, cheios de água que, nesta região, foram um intricado sistema de cavernas e grutas subterrâneas, que chegam a atrair destemidos mergulhadores (no ano passado, um casal de brasileiros morreu mergulhando em um destes cenotes, supostamente por não ter conseguido encontrar a saída).

    O cenote que visitamos, Ik-Kil (ou Sacred Blue Cenote) fica perto de Chichén Itzá, é tido como um dos mais bonitos e populares, frequentados mais por banhistas do que por mergulhadores. Ele está a 25 metros abaixo da superfície, sendo alcançável por uma escada que o circunda. Tem 40 metros de profundidade e algumas plataformas de salto, de alturas variadas, que fazem a delícia dos turistas, que se enfileiram para pular. Eis uma foto tirada de cima: 


    Depois de bem observar os saltadores, resolvi partir para a fila e encarar a plataforma mais alta. A imensa maioria das pessoas pulava de pé, mas como havia visto muita gente saltando de cabeça, estava convicto de que iria fazer assim. Saudades dos meus tempos de Cabo Frio, quando pulava com bastante categoria da pedra mais alta do Forte...

    Ao chegar lá em cima, a barriga congelou de frio. Vertigem total. Vânia, papai e mamãe lá do alto, com máquinas a postos para tentar captar o momento e assistir o meu salto. O jeito foi respirar fundo, travar os joelhos que tremiam e me atirar, de ponta, comme il fault. A sensação de ter superado o medo foi a melhor possível. Voltar para o segundo salto era moleza.




    Escrito por Bruno Rabello às 08h15
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    Solidão que nada

     

    Foi, é claro, com o coração partido, que embarquei para viajar sozinho. Não que isso tenha sido uma decisão precipitada, pelo contrário. Comprei minha passagem no impulso, em outubro, ao ver uma promoção da Qatar Airways (tida como a melhor do mundo), quando a gravidez da Vânia ainda era incerta. De lá para cá, tive muito tempo para comprar outra passagem para ela (o que achamos melhor não fazer) ou desistir da minha viagem, perdendo a passagem (ou pagando uma multa alta para remarcar). A própria Vânia me deu o aval para ir, embora lamentasse não estar em condições (leia-se: preparo físico para encarar, com o meu pique, a viagem) para me acompanhar. Só espero que nossa filha não cresça ouvindo “seu pai foi viajar pelo mundo enquanto eu estava grávida de você” ou algo semelhante... 

    Não vai ser a minha primeira experiência viajando sozinho. Na primeira vez que estive na Europa, com a minha família, fiquei mochilando por mais uma semana depois que eles voltaram para o Brasil. Tinha 24 anos, conhecimento zero do mundo, apetite enorme para conhecê-lo, a inexperiência de quem acha que o bom é bater ponto no maior número de lugares possíveis e um pique de dar inveja a atleta olímpico. Achei a experiência fantástica e fiquei espantado com o tanto que o tempo rendia, com a quantidade de coisas que eu conseguia fazer em um único dia.  Por mais afinado que você possa estar com o seu companheiro de viagem, sempre haverá momentos em que um esperará pelo outro e alguma discussão sobre o que fazer o quê e quando. Viajar sozinho tem, ao menos, esta vantagem. 

    O mais difícil para mim nem é tanto a falta que faz alguém para dividir as impressões, sensações e descobertas. Em tempos de internet e com wi-fi nos hotéis, este tipo de solidão é minimizado. Ficar inteiramente só é uma opção. Duro mesmo foi bater o martelo, assumir que viajaria sozinho e não deixar que os comentários bem intencionados de amigos e familiares me fizessem desistir. 

    Daquela vez fiquei em albergues, o que por si só é um convite para conhecer outras pessoas. Logo, só estive sozinho quando quis. Desta vez, os preços convidativos do sudeste asiático, a idade “um pouco” mais avançada e o desejo pela certeza de um pouquinho mais de conforto levaram-me a optar por reservar hotéis. Em comum com a outra viagem, o espírito errante, a vontade de experimentar novos sabores, deslumbrar-me com o novo e conhecer mais um pouquinho do mundo. 



    Escrito por Bruno Rabello às 14h19
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    Prazer, culpa e expiação

     

    Quando assisti ao excelente documentário The Cove (premiado com o Oscar e que inexplicavelmente não foi lançado comercialmente no Brasil) fiquei chocado com o massacre de golfinhos que acontecia no Japão e tocado com os ambientalistas que lutavam para acabar com aquilo. Ignorava os males que os aquários estilo Sea World causavam a estas criaturas tão dóceis e simpáticas e me propus nunca prestigiar este tipo de atração.

    Falhei absurdamente na primeira oportunidade que me foi dada. Sempre fui alucinado com golfinhos e não resisti à tentação de nadar com eles no X-Caret, um enorme complexo de parque, praias e zoológicos que existe próximo a Playa del Carmen

    Realizei um sonho de infância, foi uma experiência divertidíssima, inesquecível e que, contudo – acreditem – me fez corroer de remorso nos dias seguintes. Sei que se tivesse deixado de ir, minha atitude teria tido pouquíssimo efeito para a causa ambientalista, procurava me consolar. E era verdade. A questão passou a ser o que fazer para contribuir de maneira positiva com aqueles que abnegadamente dedicam suas vidas a tentar salvar estes animais. Resolvi expiar minha culpa (ou parte dela), doando o mesmo valor que paguei pelo ingresso para a ONG. Quem quiser saber mais sobre ela, procure por http://www.thecovemovie.com/.

    É claro que melhor seria ter ajudado a organização sem ter contribuído em nada com a exploração dos pobres animais. Assumo a culpa pelo erro, querendo crer, sem hipocrisia, que fiz mais bem do que mal. E isso é melhor que nada.

     



    Escrito por Bruno Rabello às 13h29
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    Alter do Chão - As praias de rio mais bonita do Brasil

     

     

    Nunca estive em Fernando de Noronha. Nem no Pantanal. Tampouco em Bonito. O lugar do Brasil que encabeçava a minha wish list de viajante, já há algum tempo, era Alter do Chão, no oeste do Pará, mais perto de Manaus do que Belém, a poucos quilômetros de Santarém (o aeroporto mais próximo).

    Tomei conhecimento do lugar quando, há poucos anos, Alter foi apontada pelo The Guardian como uma das 10 praias mais bonitas do Brasil, uma espécie de “Caribe amazônico”, à beira do Rio Tapajós. Mesmo sabendo que isso era um evidente exagero, o lugar entrou no meu radar e comecei a guardar todas as reportagens que falavam de lá.

    Esperei uma promoção de milhas e emiti a passagem para o primeiro final de semana prolongado que se mostrou viável. De quebra, passaria dois dias em Belém, cidade que não conhecia (ir a Belém foi uma opção, não uma necessidade, já que poderia ter emitido o bilhete direto para Santarém; a parada em Belém me fez emitir um terceiro bilhete, mas mesmo assim a promoção ficou de bom tamanho).

    Em Alter do Chão, hospedei-me no Belo Alter, que fica um pouco afastado do centro da vila (R$ 10,00 de táxi), mas tem uma infra-estrutura razoável (piscina, ar-condicionado nos quartos, praia particular, restaurante). Nosso quarto era bem espaçoso e a cama enorme. Nada de frescura, apenas o essencial para um mínimo de conforto.

    A alta temporada turística de Alter do Chão vai de setembro até dezembro, quando o nível das águas do Rio Tapajós desce e as praias começam a aparecer. Após isso, o período das chuvas recomeça (o inverno amazônico) e as águas voltam a subir, engolindo ilhas e a maior parte das praias.

    É sem sombra de dúvidas um lugar belíssimo, surpreendente para nosso olhar desacostumado com esta parte do Brasil. Completamente diferente da parte do Amazonas que já conhecia (o Ariaú, às margens do Rio Negro, e Manaus). Lá, as águas eram escuras e a floresta praticamente se misturava ao rio, formando inúmeros igarapés e igapós. Já as águas do Tapajós eram verdes, claras e (pelo menos na época em que fui) as praias de areia branca despontavam em todos os lugares, muitas vezes na forma de pontilhões de areia projetados sobre o rio. Em comum, a imensidão dos rios, cuja outra margem nem sempre era visível e a acidez da água, que impede a proliferação de mosquitos!

    Alter do Chão é uma pequena vila (na verdade, um distrito de Santarém, que não tive interesse em conhecer), que conta com algumas pousadas e restaurantes, a maioria deles na praça principal. Logo em frente, um braço do Tapajós, onde, na vazante, forma-se a Ilha do Amor (na verdade, um grande banco de areia), com várias barracas e que estava absolutamente lotada no domingo que passamos lá. É na praça que se pode encontrar os barqueiros e negociar os preços para os passeios. No primeiro dia, fomos para a praia de Ponta de Pedras, onde passamos a maior parte do dia, almoçando e bebendo na praia e nadando nas águas mornas do rio (detalhe importante que encantou a Vânia: você sai da água sem ficar melando de sal!). Na volta, perto do pôr-do-sol, paramos na belíssima Ponta do Cururu onde, para nossa sorte e apesar dos playboys de jet-sky e do “tráfego” pesado de lanchas (era um sábado de muito sol, calor e turistas), vimos alguns botos nadando. No dia seguinte, depois de ficar boa parte da manhã na praia da Ilha do Amor tentando nos proteger do sol escaldante, fomos conhecer o Lago Verde e a Cabeceira do Macaco, por onde passeamos pelo riacho até uma de suas nascentes. No nosso último dia, 2a-feira, tudo estava muito mais tranqüilo. Fomos para a praia de Pindobal (onde também vimos botos) e passamos pelo Lago do Jucuruí, com a impressão de que só existia nós, o barqueiro e o garçom da barraca em que almoçamos no mundo.

    Vista da Ilha do Amor, a partir da Praça de Alter do Chão

    A Ponta do Cururu vista de longe

    A Ponta do Cururu vista de perto

    Cabeceira do Macaco - Riacho pelo qual caminhamos até uma nascente

    Foto tirada da Ilha do Amor

    Grata surpresa foi encontrar em um lugar tão rústico um restaurante tão gostoso quanto o Arco-Íris (tão bom que não hesitei em ir lá nas 3 noites em que passamos), localizado na praça, com pratos mais elaborados e, como todo o povoado, bastante hospitaleiro.

    Não me surpreende mais o grande número de turistas estrangeiros que encontro nestas viagens, principalmente europeus. Com certeza, topamos com mais gente de fora do país do que da região sudeste do Brasil. Fato curioso é que vários estrangeiros estejam morando por lá, inclusive em comunidades, encantados com o ritmo lento e com o estilo low profile da região.

    Talvez as viagens para o Jalapão (já relatada aqui), para os Lençóis Maranhenses  e para o Amazonas – outras incursões minhas no eco-turismo – tenham sido mais impactantes e provocados mais “ohs” de admiração. Alter foi me conquistando gradativamente, a cada curva do Rio e a cada praia, me enchendo de boas lembranças e da satisfação de ter conhecido mais este cantinho do Brasil. 



    Escrito por Bruno Rabello às 11h58
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    Norwegian Wood - Parte 2. Oscar e o melhor restaurante japonês da minha vida. Surpresas de Oslo

     

     

    Antes de planejar a viagem, não havia nada que me atraísse particularmente a Oslo. Sempre que pensava na Noruega, era Bergen e os fiordes que me seduziam. Da capital, sabia apenas que era a cidade de Edward Munch, onde eu certamente poderia ver um dos mais famosos quadros do mundo: O Grito (na verdade, existem quatro “O Grito”, 2 deles no Museu Munch, que estava fechado durante a minha visita, 1 na Galeria Nacional de Oslo, que foi o que vi e um em coleção particular, recentemente vendido por USD 119,9 milhões e que se tornou o quadro mais caro da história). Mesmo assim, entrei em contato com os proprietários de imóveis cadastrados no homeforexchange.com e, ao receber uma resposta positiva em tempo recorde, resolvi fechar com ela o meu roteiro.


    Tirar foto com o original era proibido, então tirei na loja do museu, com a réplica

    O apartamento em que ficamos era excelente, bem novo, localizado em uma zona residencial de onde, em poucos minutos, se chega a qualquer outro ponto da cidade. Eirik, o proprietário, foi superprestativo, nos buscou na estação de trem (quase 23:00 horas!), nos convidou para sair uma noite e nos ajudou a pegar um taxi na hora de ir embora. O mais engraçado é que ele topou a troca, mesmo sem planos de vir ao Brasil em um futuro próximo, contentando-se com a promessa de “crédito” de hospedagem.

    Se Oslo não possui atrações turísticas tão famosas, a culpa não deve recair sobre a cidade, pois não lhe faltam atrativos. Lamentei não ter conseguido ingresso para ver um espetáculo na Ópera de Oslo, com sua arquitetura magnífica, que permite ao público caminhar sobre o seu teto. O lugar é tão bacana que acabamos decidindo almoçar em seu restaurante, desfrutando da bela vista para a baía da cidade.

    Não ter um Niemeyer para reverenciar ad nauseam permite arquitetura arrojada e bonita

    Passamos um dia inteiro em  Bigdoy, a Ilha Museu, alcançável por ferry. Os mais visitados são o Vikingsipshuset – com 3 dos mais bem preservados navios vikings que existem, encontrados enterrados junto com corpos e artefatos (acreditava-se que era uma maneira de facilitar a jornada dos poderosos falecidos para o novo mundo) –, o Museu do Folclore Norueguês – com a reprodução de casas, fazendas e estabelecimentos noruegueses de diversas épocas e que também conta com uma Stave Church que foi transplantada para lá (vide post anterior) - e o Museu Fram – dedicado às explorações polares.

    O que eu mais gostei, no entanto, foi o fascinante Museu Kon-Tiki, dedicado às façanhas de Thor Heyerdahl, norueguês que, na tentativa de provar que era possível que as ilhas do oeste do Pacífico tivessem sido povoadas por povos da América do Sul, construiu com técnicas rudimentares uma jangada feita de junco e nela foi do Peru à Polinésia em 1947. Posteriormente, com um barco feito de papiro e junco, ele atravessou do Marrocos ao Caribe. Suas façanhas tornaram-no um dos mais conceituados exploradores do mundo, verdadeiro herói nacional. No museu encontram-se réplicas dos dois barcos construídos, além de várias informações sobre as expedições, inclusive um documentário premiado com o Oscar. Para minha surpresa, foi em Oslo que eu, apaixonado por cinema, vi pela primeira vez uma estatueta!

    Não esperava ver um Oscar de verdade, pela primeira vez, em Oslo.  

    Outro programa emocionante e bacana que fizemos foi visitar o Centro do Nobel da Paz. Os prêmios Nobel são todos entregues em Estocolmo, com exceção do Nobel da Paz, entregue em Oslo, por que assim quis o seu fundador. E, é claro, existe um museu dedicado ao prêmio e aos condecorados. Na semana seguinte à nossa visita, a ativista birmanesa Aung San Suu Kyi iria estar lá receber o seu, após anos de prisão domiciliar.

    O lugar de que mais gostamos foi o maravilhoso Parque de Esculturas Vigeland, o maior do gênero com obras de um único artista (Gustav Vigeland) tanto que acabamos indo lá duas vezes, a segunda apenas para poder tirar mais fotos. É considerado a principal atração turística da Noruega, muito embora – shame on me – eu nunca tenha ouvido falar dele. O lugar é belíssimo, as esculturas (212, espalhadas em pontes, fontes e praças, retratando diversas situações da vida do homem) são incríveis e é realmente uma atração imperdível.


    Imagens do Vigeland Sculpture Park

    Fechamos a viagem com um jantar magnífico no Alex Sushi, o melhor restaurante japonês de Oslo. Já disse aqui antes que sempre que viajo procuro pelo restaurante japonês perfeito e o Alex Sushi será difícil de ser igualado. Não apenas pelo frescor dos peixes, pelos nacos generosos do sashimi de lagosta ou do surpreendente sashimi de baleia; nem tampouco pelo ambiente transado, pelo balcão concorrido ou pelo serviço impecável. Mas principalmente por ser o fecho de ouro de uma viagem incrível.

    Visual que dispensa elogios

     

     



    Escrito por Bruno Rabello às 05h29
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    Norwegian wood - Parte 1

     

    Depois de confirmada a troca de casas para Copenhagen, tomei a iniciativa de procurar interessados em home for exchange na Noruega e disparei a mandar convites. Para minha agradável surpresa, obtive duas respostas positivas: uma de Bergen e outra de Oslo. A viagem ficaria longa – a mais longa que já fiz – mas tudo foi se encaixando tão bem que não dava para deixar de fazê-la.

    Desde que Bergen foi uma das capitais cultural da Europa, no ano 2000, ela se tornou um dos meus destinos mais desejados. E conhecer os fiordes noruegueses sempre foi um sonho.

    Deixamos Copenhagen na noite de uma sexta-feira e pousamos no aeroporto de Bergen por volta de 23:00. O dono do apartamento em que iríamos ficar havia deixado instruções dizendo onde estariam as chaves (em uma caixa de correio). O taxi demorou um pouco a localizar o endereço correto e já era quase meia-noite quando chegamos no apartamento. Uma baita decepção. Embora bem localizado (o que só iríamos ver no dia seguinte), o apartamento estava muito mal cuidado. Percebia-se claramente que os donos (um casal com dois filhos) não haviam tido o menor interesse em arrumá-lo para receber visitas. A distribuição dos cômodos era de matar: o quarto do casal tinha uma porta para a cozinha e para chegar ao banheiro era necessário passar por ela. Para piorar, os vizinhos do prédio ao lado estavam dando uma festa, com muito barulho, que tornava dormir uma tarefa impossível. Não havia wi-fi, como prometido e o computador alquebrado (teclado faltando algumas teclas) que nos foi deixado como alternativa era de amargar. A “cereja do bolo”: louças sujas na pia da cozinha!

    Na manhã seguinte fiz rápida pesquisa de hotéis no booking.com e decidimos deixar o apartamento, não sem antes mandar um e-mail para o nosso anfitrião listando todos os motivos pelos quais não iríamos dormir lá as duas noites seguintes, como havia sido tratado. E-mail que não demorou a receber como resposta um pedido de desculpas acompanhado da declaração de que, diante do ocorrido, eu estava exonerado da minha obrigação de hospedá-lo no Rio no futuro.

    Por sorte, o hotel – Det Hanseatiske (acessível aqui) – era charmoso e com localização privilegiadíssima, a poucos passos de Bryggen, o colorido conjunto de casas de madeira à beira do porto que é o principal cartão postal da cidade e que é tido pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Também próximo fica o mercado de peixe, onde se vendem iguarias escandinavas, como carne de baleia que, com culpa ambientalista, provei. Assim como provei carne de rena, com a convicção de que tais experiências eram parte da imersão na cultura local.


    Vânia com o casario de Bryggen ao fundo

    A cidade vivia uma semana especial. Bergen é tido como um dos lugares mais chuvosos da Europa – algo como 300 dias de chuva – mas passamos dias quentíssimos lá, sem vestígio de nuvem no céu. Sol a pino até quase 23:00. Além do mais, estava acontecendo um festival de jazz na cidade, com diversos shows em todo o canto, que ajudavam a dar um clima festivo.

    De perto do hotel se podia pegar o funicular para subir a Floyen Mountain, de onde se tem uma vista maravilhosa da cidade. Seguindo os conselhos de alguns turistas no site tripadvisor, resolvi encarar a subida a pé. Foi uma longa caminhada, sem dúvida, que requer um pouco de preparo, mas não chega a ser exaustiva. O sabor de conquista ao fim do trajeto recompensa o esforço, tanto é que ainda tivemos energia para nos embrenharmos por outras trilhas lá por cima e encontramos belos lagos.

    Fizemos um passeio para fora da cidade, em direção ao sul, até Fantoft por conta própria, para ver uma Stave Church, igreja medieval toda feita de madeira, que era comum no noroeste da Europa e que hoje só pode ser encontrada na Noruega (a apenas uma fora de lá, na Suécia). Bate e volta de duas horas, bem proveitoso.


     Stave Church de Fantoft

    Bergen é o principal ponto de partida para muitos dos passeios pelos fiordes noruegueses. São dezenas de opções de passeio, muitos dos quais retornam para a cidade no mesmo dia. A minha idéia era para Oslo passando por alguns destes fiordes e, se possível, parando no meio do caminho para apreciá-los com mais calma. Escolhi passar uma noite em Flåm porque havia lido que de lá se pega a Flamrailway, que é considerado um dos trajetos de trem mais bonitos do mundo (link aqui).

    Os fiordes são braços de mar que avançam dentro do continente, cercados por altas montanhas rochosas. É uma formação geográfica que não temos no Brasil, mas que é bem típica da Noruega, do sul do Chile e do sudoeste da Nova Zelândia. Por serem bastante profundos, podem ser navegados por grandes navios. Fizemos o trajeto de Bergen para Flåm em um ferryboat, que parava em alguns pequenos vilarejos ao longo do caminho. O passeio é, sem sombra de dúvidas, muito bonito, mas eu hei de confessar que não estava extasiado como imaginava que iria ficar. Talvez por ter feito no ano anterior o magnífico passeio pelo Parque Nacional dos Glaciares, na Argentina.

    Havia reservado um hotel para passar a noite em Flåm, sem ter a certeza se haveria coisas a fazer por lá. Sabia apenas que era uma cidade minúscula, aos pés de um dos fiordes mais visitados da Noruega. Assim, tão logo desembarcamos do ferry, corremos para o hotel (há dois na cidade) para deixar as malas e procurar o que fazer no escritório de turismo. Dali a pouco tempo sairia um passeio de lancha pelos fiordes e, impulsivamente, resolvemos embarcar. Para tanto, tivemos que colocar roupas, chapéus e óculos especiais, pois iríamos aproximar bastante de diversas cachoeiras formadas pelo degelo da neve no alto das montanhas.

    Neste tour, o meu entusiasmo começou a crescer, já que a perspectiva é completamente diferente da que se tem de dentro de um ferryboat (ou de um grande navio). As montanhas, os fiordes, as cachoeiras, as fazendas e vilarejos ganham outra dimensão quando vistas de um barco pequeno, que se aproxima bastante das margens. Chegamos a ver algumas pequenas baleias (mais pareciam golfinhos, pelo tamanho, mas o guia garantiu serem baleias), o que fez o passeio ainda mais especial.

    Toda manhã pelo menos um grande navio chega ao porto de Flåm (algumas vezes maior que o hotel em que ficamos) e deles descem centenas de turistas para pegar a Flåmrailway (que faz o trajeto de 40 minutos até Myrdal). No final do dia, os navios zarpam para continuar seus cruzeiros. Poucos – em comparação – são os turistas que, como nós, resolvem passar a noite na “cidade”. Além dos dois hotéis e de algumas lojas de souvenir, há uma cervejaria artesanal bastante e merecidamente prestigiada – Ægir, site acessível clicando aquionde estivemos nos dois dias. Restaurante? O do hotel, self-service, de muito boa qualidade.

    Eu havia planejado pegar Flåmrailway na manhã seguinte, mas os bilhetes já estavam esgotados (por conta da chegada de um novo navio), o que acabou nos obrigando a comprar bilhetes para uma saída na parte da tarde, atrasando nossa chegada a Oslo. Este imprevisto acabou sendo ótimo, pois nos deu a chance de fazer um passeio de van pelas estradas da região, até um mirante com a mais bela e impressionante vista dos fiordes. Se havia ficado um pouco decepcionado com a paisagem no trajeto inicial, agora a decepção tinha dado lugar ao mais puro deslumbramento!


    Vista panorâmica do fiorde, do mirante perto de Flam



    Escrito por Bruno Rabello às 18h50
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    Ainda no reino da Dinamarca...

    Haviam me dito que uma semana seria tempo demais para passar em Copenhagen e eu quase acreditei nisso. Talvez seja realmente tempo demais se você pretende apenas bater ponto nos pontos turísticos mais badalados (como Nihavn, o Tivoli e A Pequena Sereia). Eu tenho optado por ficar sempre mais dias no mesmo lugar para poder conhecê-los sem pressa e me permitir repetir um ou dois programas (o Tivoli, por exemplo, mereceu um retorno; Nyhavn e Stroget, a principal rua de comércio da cidade, vários).

    Como a Dinamarca é reconhecida pela excelência do seu design, quisemos visitar o Danish Design Center, onde vimos exposições interessantíssimas sobre o uso de materiais recicláveis, de design e tecnologia aplicados ao esporte e um retrospecto do design dinamarquês desde os anos 40, exposições que serviram para nos mostrar que o conceito de design é bem mais abrangente do que um leigo como eu supunha.

    O dinamarquês mais famoso no mundo é Hans Christian Andersen, autor de centenas de contos infantis, como O Patinho Feio e O Soldadinho de Chumbo. Carl Jacobsen, o milionário dono da cervejaria Carlsberg, presenteou Copenhagen com a estátua da Pequena Sereia, um das estórias mais conhecidas de Andersen e ela se tornou um dos lugares mais visitados da cidade. Mas é apenas uma estátua e, por isso, muita gente se decepciona ao vê-la (não foi o meu caso, até porque sabia o que me esperava). O maior legado de Jacobsen, no entanto, é o imperdível museu NY Carlsberg  (também listado naquele livro dos 1000 lugares), que abriga uma impressionante coleção de estátuas greco-romanas, a maior coleção de Rodin fora de Paris, vários trabalhos de Gauguin, Degas (dezenas de bronzes), Monet, Manet, e outros grandes artistas. Sem falar nas múmias, sarcófagos e artefatos egípcios, tudo exposto em um belíssimo palacete.


    Na estátua mais visitada da cidade

    Os seis dias que passei em Copenhagen acabaram não sendo suficientes para aproveitar tudo o que a cidade tinha para oferecer. Se o Mads tiver gostado tanto do Rio quanto eu gostei de Copenhagen – e tudo indica que ele gostou, pois batizou de Rio o seu filho! – prevejo nova visita!

    Minhas dicas: a) deixe para ir a partir do final de maio quando as temperaturas já subiram e a cidade comemora a chegada do sol; b) dedique pelo menos cinco dias à cidade e dois ao Tivoli; c) compre o Copenhagen Card que dá direito ao uso do transporte público ilimitado, acesso às principais atrações e até a excursões de barco; d) tendo tempo compre também o cartão que dá direito a viajar para e pela Suécia por 48 horas; eu acabei não visitando Malmö por falta de tempo.

    Aproveitando o céu azul em um dos belos jardins



    Escrito por Bruno Rabello às 18h45
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