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    Política



     
     

    Equívocos do "gênio"

     

     

    Não se pode negar que há muitos momentos absolutamente geniais na monumental obra de Oscar Niemeyer (morador de Brasília por 5 anos, encantava-me com a visão de sua Catedral, do Palácio do Planalto e até do Congresso, quando me abstraía dos seus frequentadores; filho de Belo Horizonte, o desenho da Igrejinha da Pampulha a ecoar nossas montanhas sempre me emocionou; e acho impossível não ficar fascinado com o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói, que mais lembra uma nave espacial projetada na Baía de Guanabara). Justo, portanto, que o país – sempre carente de ídolos, exemplos e orgulhos – tenha lhe rendido grandes homenagens. Isso não significa que se deva fechar os olhos para tantos e evidentes equívocos, seja em seus projetos arquitetônicos, seja em seus posicionamentos políticos.

    O economista Rodrigo Constantino publicou na semana passada um artigo provocador intitulado O Comunista que Amava Stalin (íntegra) em que toca em um ponto intrigante da índole dos nossos meios de comunicação e formadores de opinião. Sustenta o articulista que a idolatria a Niemeyer não se deveu apenas às suas curvas; era também motivada pela construção de sua persona como um ícone da esquerda.

    Parece sintomático o fato de que poucas as vozes que tiveram espaço para criticar – não apenas por ocasião de sua morte, mas durante toda a sua vida – as posições e relações políticas de Niemeyer. E não me refiro apenas às repugnantes declarações de admiração a pessoas do naipe de um Fidel Castro ou de um Joseph Stalin, dois tiranos assassinos que tanto mal causaram e causam a seus conterrâneos.  Mas o que dizer do fato de que Niemeyer fez fortuna às custas do dinheiro dos contribuintes, sempre muito bem pago pelo Estado para a realização de seus projetos, sem jamais se submeter à licitação (“coisa de liberal chato”, ironiza Constantino) ou mesmo a concursos públicos?

    Em março de 2009 postei aqui no blog um texto intitulado Mais do Mesmono qual lamentava que o Governo de Minas Gerais tivesse escolhido Niemeyer para projetar a Cidade Administrativa. Na época morava em Brasília e lamentava ver aqueles prédios sendo erguidos de uma maneira incomodamente semelhante aos Tribunais Superiores de lá. Aquilo me parecia preguiçoso, mera adaptação de tantos outros projetos e, pior, extremamente antiquado quando comparado aos magníficos edifícios construídos por ocasião das Olimpíadas de Beijing, cada um deles projetados por um grande escritório estrangeiro.

    Nem podia imaginar que depois de inaugurada a Cidade Administrativa iria ecoar o pior do arquiteto: falta de praticidade, banheiros localizados a distância indecente dos locais de trabalho, uso de carpete, estacionamento complicado, praças sem árvores, áridas, que não convidam à convivência. Sabia sim que qualquer tentativa de melhoria (estacionamentos subterrâneos, troca do piso por algo que não se desgasta tanto), seria barrada pelo seu escritório, famoso por não ter a grandeza de adaptar ou melhorar os projetos para melhor utilização. Não deixa de ser irônica a insensibilidade de um ícone de esquerda com relação aos anseios dos usuários e da população, não é mesmo?

    Ainda pior, é o prédio do Museu Honestino Guimarães, em Brasília, que também vi sendo erguido. Em uma época em que a consciência ambiental se espalha, em um lugar famoso por ter o mais belo céu do mundo, foi construído um prédio sem janelas, sem iluminação natural, otalmente fechado. E, pior, sem críticas ao projeto.

    Obviamente, não defendo que o posicionamento político de Niemeyer sirva como régua para avaliar o seu talento.  Mas também não possa aceitar que isso lhe sirva  - ou tenha lhe servido, como acredito – como um salvo-conduto para abocanhar projetos pelo Brasil e pelo mundo a fora. Se é fato que ele nunca participou de concursos ou licitações, quem saiu perdendo foram gerações de arquitetos mais jovens, sempre alijados das possibilidades de mostrar o seu talento pela presença icônica e estelar de Niemeyer. Que em pleno século XXI o Brasil continuasse a privilegiando o seu traço em detrimento de projetos mais ousados, arrojados e modernos – novamente sem dar a oportunidade a talentos emergentes, daqui e de fora, é sintoma de uma visão tacanha de mundo, que o culto à sua personalidade ajudou a fomentar.

    A onipresença de Niemeyer no cenário da arquitetura brasileira não é um ponto positivo. Diga-se, ainda, que nem é exclusivamente dele a culpa por isso. Nosso xenofobismo nesta área – evidenciado pelos raros exemplos de projetos de escritórios internacionais – é sob todos os aspectos lamentável. Que se celebre o seu gênio onde ele floresceu e que se aponte os seus erros onde eles foram cometidos. E que o Brasil enfim enxergue que a arquitetura avançou muito desde 1960 (inauguração de Brasília) e que, livre da sombra de Niemeyer, consiga pegar o bonde deste avanço fascinante.

    Update: Depois de ter escrito este post, deparei-me com o artigo do Demetrio Magnoli, Niemeyer, a arquitetura da destruição, do qual destaco e endosso a seguinte passagem: "Uma edificação de Niemeyer jamais se relaciona significativa ou funcionalmente ao entorno construído, que ele despreza, pois não emergiu de seu traço. Os espaços residuais entre volu­mes projetados pelo arquiteto nunca adquirem identidade e servem somente paraa contem­plação de seus monumentos à Autoridade. Quanto maior é a escala do projeto, mais eviden- tese torna a "modernidade ana­crônica" de Niemeyer" . Nada a acrescentar.

     

     



    Escrito por Bruno Rabello às 19h50
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     #TetecaFacts

    Escrito na noite de sexta-feira, 02.03, com o coração em pedaços:

    Quando eu a trouxe para a fazenda, ela era do tamanho de um porquinho da Índia. Tinha acabado de se separar do resto da ninhada e, comportamento atípico, estava arisca, sem querer ficar no meu colo. Ao chegarmos, mostrei aquele projetinho de cão para os filas. Ela entrou em pânico e, desde então e para minha felicidade, nunca mais quis sair do meu colo.

    Ela adorava correr atrás de sua bolinha. Melhor dizendo: as outras cachorras adoravam. O que ela sentia diante da bolinha era diferente, algo tão forte que a fazia se jogar na piscina para pegá-la – piscina da qual ela não conseguiria sair sem ajuda – e nadava com sua “tetéia” na boca. Quando eu jogava a “tetéia” longe e todas as cachorras saiam em disparada, ela perdia a corrida para as mais novas, mas acabava ficando com a bola, já que a tirava de dentro da boca de uma outra mais veloz ou mais leve. Ela queria mais e por isso levava a melhor.

    A primeira vez que ficou prenha, cerquei-a de cuidados que nem sempre dispensei às outras. Fez ultrassom para que soubéssemos o tamanho da ninhada e para minimizar os riscos de complicações. Mas quando entrou em trabalho de parto, as coisas se complicaram um pouco. Depois de uma madrugada inteira com mamãe ao seu lado e de vê-la exausta, sem parir nenhum filhotinho, convencemo-nos de que devíamos ir para Belo Horizonte (estávamos na fazenda). Fomos para o carro, mamãe no volante da Cherokee, eu no banco de trás com ela. Andamos menos de 2 quilômetros e a Branquinha nasceu em minhas mãos. Está conosco até hoje (ela e o Dunga, seu irmão de ninhada), com muitas das manias da mãe.

    Tivemos uma cadela fila que, por algum motivo, começou a se indispor com nossas fox (4 ou 5, dependendo da época). A culpa é sempre das fox que, apesar de bem menores, são atrevidas: rosnam e avançam. Houve algumas brigas e, por sorte, nenhuma das fox morreu (isso já havia acontecido antes, há muitos anos). Mas os ferimentos anunciavam uma tragédia iminente e tivemos que exilar a fila para fora do muro que cerca a casa. Uma noite, em que íamos ficar do lado de fora, resolvi sair com a Teteca, crente que comigo não haveria perigo. Cagada monumental: elas se atracaram, Teteca foi mordida no pescoço, corte grande, muito sangue. Quase morri de culpa, mas ela se recuperou bem.

    Seu nome “de verdade”, que constava dos registros do veterinário, era Bisteca. A Bisteca da Junia. Mas a gente sabia que ela era Teteca. Do Bruno.

    Criadas na fazenda, junto com os filas, disputando comida, sua delicadeza era impressionante. Sempre que recebia um pedaço de carne, pão ou ossinho, ela – ao contrário das outras que engoliam quase que sem mastigar – ia para outro cômodo, deitava-se e calmamente degustava a oferenda.

    Seu jeito de me fazer festa era encantador. Subia na “nossa” cama e, deitada, espichava braços e pernas, o que me lembrava um daqueles tapetes de couro de vaca. Eu pedia para ela se fazer de tapetinho e ela, entendo, se fazia.

    Obviamente cada um dos nossos cachorros tem uma personalidade e um jeito próprio, de modo que dizer que ela era muito diferente diz pouca coisa. Todos são. Mas só ela conversava comigo (por conversar digo dar vários latidinhos contínuos, uma espécie de “uouououou”, respondendo sempre que eu falava com ela), só ela sabia comportar-se maravilhosamente em BH ou no Rio e, como já disse, pulava na água atrás da bolinha.

    Era brava ou pelo menos gostava de nos mostrar isso. Assim que via o jardineiro da fazenda – que ia lá todos os dias – avançava e mirava a canela, para morder de verdade. Mas, segundo o próprio jardineiro, só fazia isso quando estávamos lá. Nos outros dias, ele trabalhava ao lado dela, sem ser incomodado.

    Antes dela, mamãe reinava soberana entre os cachorros: todos sempre gostaram mais dela do que de mim. Teteca foi a primeira a me escolher como dono e mamãe brincava  chamando-a de falsa. Isso porque, na minha ausência, ela não desgrudava da mamãe. Mas depois que eu chegava, ela passava a ignorar seus chamados, sequer olhando mamãe.

    Há alguns anos, por conta de uma dermatite no ouvido, ela fez um exame de sangue e o resultado, totalmente inesperado, me aterrorizou: leishmaniose. Arrasado, eu tinha uma certeza: eu jamais iria admitir que ela, saudável, forte e feliz fosse sacrificada. Repetimos os exames e, para meu alívio, tinha sido um falso positivo.

    Depois do seu sumiço no réveillon de 2010/2011 – motivo para um post específico acessível clicando AQUI – ela passou a morar em BH. Isso é: ficar comigo entre domingo e 4a-feira, indo na 5a para a fazenda com mamãe e papai. Portou-se como se tivesse nascido para morar em apartamento: nunca fez xixi ou cocô dentro de casa, sempre esperando que eu a levasse na rua (as outras, quando iam, costumavam travar e davam um trabalho danado), onde andava sem coleira.

    Desde antes de se mudar de vez para BH, sempre que via a gente se arrumando na fazenda para voltar, ela percebia e ia para perto do carro. Se via uma brecha, se abuletava para dentro, até mesmo do porta-malas (a Pitucha, a bem da verdade, também faz isso). Uma das coisas que mais me partiam o coração era tirá-la do carro e deixá-la lá.

    Quando as cachorras estão amamentando é normal que elas fiquem bravas com a aproximação de uma outra. Teteca não era diferente, mas fazia uma exceção para a Branquinha (e vice-versa) sua primogênita. Achava lindo que mesmo depois de tantos anos elas se reconheciam como mãe e filha.

    Tinha índole de caçadora, típica da raça. Quando aparece um rato silvestre ou um gambá na casa todas ficam doidas. Teteca, no entanto, sempre preferiu bicho que “avoa” e não sossegava se visse um morcego dentro da casa (e via vários), saltando mais de um metro, como se fosse subir nas paredes.

    Apesar de ser uma fera – quase um pitbull, quando precisava – sempre foi um doce de paciente. Obviamente detestava ir ao veterinário, mas se submeteu estoica e comportadamente a todos os tratamentos, cirurgias e procedimentos. Nunca rosnou para médico ou enfermeiro, coisa comum entre a raça. Quando me via pegar um envelope com comprimidos, assentava-se esperando que eu enfiasse um deles em sua garganta, mesmo odiando aquilo. Sua oncologista me disse ter ficado impressionada com sua doçura, durante as sessões de quimioterapia a que se submeteu.

    Quero acreditar que fiz tudo o que podia como seu dono favorito, sem economizar e preservando sua qualidade de vida. Esta semana, contudo, ela estava muito incomodada. Tentava comer e tinha dificuldades para engolir, passou a noite mudando de lugar, sem achar posição na cama. Por conta de uma anemia forte, estava muito cansada e eu a carregava no colo para subir e descer escadas. Um curativo no pescoço de uma lesão difícil de cicatrizar (hemangioma que havia estourado) e o forte calor pioravam a situação. Chegou a fazer uma transfusão de sangue que lhe deixou um pouco mais animada, mas sem resolver o problema da alimentação.

    Hoje pela manhã regurgitou uma coisa espumosa, misto de saliva com sangue. Voltei com ela para a Clínica (onde já tinha estado todos os dias da semana) e nosso veterinário sugeriu uma endoscopia para se certificar da origem do problema. Ele apontava algumas hipóteses, algumas piores que outras. O procedimento era feito com anestesia geral e eu tomei a decisão bastante dolorosa: se o que ele encontrasse fosse muito ruim, autorizava que se “aprofundasse a anestesia” (eufemismo pouco é bobagem). Dei-lhe um beijo e entreguei-a no colo do veterinário. Tentei conversar com uma das recepcionistas da clínica, mas antes que as lágrimas começassem a descer, saí de lá. Liguei para mamãe que estava no Rio, mal conseguindo falar. Não precisava, na verdade, pois se alguém entendia o que eu estava sentindo, é ela.

    No início da tarde, recebo o telefonema do veterinário me contando o que encontrou. O prognóstico era muito ruim e a sobrevida seria à base de fortes analgésicos. (Re) autorizei e desabei no choro.

    Fui premiado com a capacidade de amar meus animais. Sei que, lamentavelmente, a maioria das pessoas não nasceu com este dom e por isso não conseguem entender o tanto que estou doído hoje. Se existir um céu, um outro lugar depois daqui, eu queria que fosse cheio de cães. Lá eu reencontraria todos os que eu amei, amo e amarei e as pessoas que compartilham o que eu sinto. Hoje, é nisso que eu quero acreditar: que a Teteca está num lugar lindo, junto da Preta, da Samantha, da Tripiça, da Chimbica, do Rajá, da Dinda, da Aninha, da Buzunguinha, da Psiquitiu, da Jamanta, da Lara, da Lira, da Tosca, do Tupã, do Xangô, do Tovar, da Dina, da Única e do Duque.



    Escrito por Bruno Rabello às 12h35
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    A culpa - quase nunca - é dos outros

     

     

    Curtir com a cara da torcida rival é algo quase tão gostoso quanto comemorar as vitórias de seu time de coração. E faz parte do “jogo” saber que quem curte um dia, no outro poderá se tornar alvo de gozações. A internet potencializa as gozações, fazendo-nos interagir com pessoas com as quais não nos encontramos no dia-a-dia. Comportar-se estoicamente nestes dias ruins é uma atitude para poucos e por isso parabenizo a postura do meu amigo Dailton, atleticano gozador, que me provocou na semana passada e ontem recebia as gozações de forma bem humorada. Mesmo ele, contudo, cogitou a hipótese de algum jogador ter se vendido.

    Não se pode negar que o torcedor atleticano é movido por uma fé inquebrantável, muito semelhante à dos petistas mais fervorosos, que se negam a reconhecer o que muitas vezes está escancaradamente óbvio (v.g.: o time é ruim; o partido é tão ou mais corrupto que os demais). Este tipo de torcedor/militante ou de militante/torcedor sempre procurará justificar a derrota ou o flagrante culpando um terceiro (o jogador que se vendeu ou a imprensa que “inventa” fatos).

    Esta realidade paralela na qual vejo até amigos esclarecidos e normalmente ponderados se perderem é algo que tenho dificuldades de entender.

    Normalmente, não comemoraria o lugar vergonhoso que meu time ocupou ao final do campeonato. Estou acostumado a vê-lo ganhar e disputar títulos importantes e sentiria a tal da “vergonha alheia” por comemorar o não descenso à série B. Quiseram os deuses do futebol que a permanência na série A se desse com a maior goleada aplicada ao arquival em todos os tempos. E isso, pessoal, principalmente depois de uma semana de tensão e medo (sim, medo!) não pode passar em branco. A comemoração é portanto benvinda!

    Aos atleticanos e petistas (ou lulistas, ou dilmistas), algumas observações finais:

    a) Cogitar que a derrota acachapante foi fruto de corrupção só torna o vexame do Atlético pior. Sinto sim vergonha alheia por quem faz isso, ignorando que o Cruzeiro ontem jogou como Cruzeiro e o Galo jogou de forma patlética, o que, convenhamos, não é algo anormal. Tanto que o time passou várias rodadas na zona de rebaixamento. E mais: se você acredita que seu time se vendeu, está na hora de trocar de time! Até porque, há muuuuito tempo ele não te dá alegrias!

    b) Carlos Lupi não caiu por causa da imprensa (nem ele, nem os outros, diga-se de passagem). Nem porque a Presidente preocupa-se em zelar pela integridade do seu governo. Caiu porque a quantidade de “malfeitos” que a imprensa tornou pública ultrapassou os limites elásticos da tolerância da opinião pública. “Malfeitos” (e viva o eufemismo) estes que eram há muito do conhecimento do Palácio do Planalto, que fez muito mal em resistir tanto tempo em fazer o inevitável. O desgaste era desnecessário e a culpa é exclusiva da Presidente.


     

     



    Escrito por Bruno Rabello às 12h23
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    Tolerância a idéias

    O deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ) é o que a grande mídia costuma chamar de “conservador” ou “de direita”. Logo, é muito fácil e cômodo taxar de absurdas todas as suas opiniões políticas e se calar diante da proliferação de manifestações pedindo sua cassação, principalmente depois da sua participação, digamos, desastrosa no programa CQC.


    Para quem não viu, o deputado participava do quadro O Povo Quer Saber, respondendo a perguntas de diversas pessoas, a maioria anônimos, quando Preta Gil lhe perguntou como ele reagiria se seu filho se apaixonasse por uma negra, ao que o deputado respondeu: “Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro este risco e meus filhos foram muito bem-educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o seu”.

     

    No programa seguinte, foi dada ao deputado a oportunidade de se retratar e ele se justificou dizendo que havia entendido mal a pergunta, já que na verdade achou que Preta havia perguntado o que ele faria se seu filho tivesse um relacionamento com gay.

     

    Em resumo: Bolsonaro admitiu ser homofóbico, mas não racista. Como acho que ele está longe de ser um cara burro, acredito realmente que ele tenha compreendido mal a pergunta,  o que não torna sua resposta menos abominável ou estúpida. Típico caso de emenda que piorou o soneto.

     

    Como não poderia deixar de ser, a onda de indignação no país tomou ares de tsunami. Pipocaram vozes pedindo sua cassação, inclusive do presidente da OAB/RJ.

     

    Em um mundo politicamente correto, é preciso um pouco de coragem para defender não o imbecil do Bolsonaro, mas o seu sagrado e inalienável direito de dizer o que pensa sem correr o risco de ser processado ou perder o mandato. Aliás, a imunidade parlamentar foi concebida justamente para este fim: garantir o direito do representante do povo de expressar suas idéias, por mais estapafúrdias que sejam. Vale a máxima de Voltaire: “Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo”.


    Uma das poucas “vozes” que se manifestou neste sentido foi a do jornalista Ricardo Noblat, em sua coluna semanal n’O Globo do dia 04 de abril, que recebeu o sugestivo título de O “facismo do bem”. De pronto, Noblat relembrou que quando ainda era candidato a presidente, Lula foi flagrado fazendo piada de tom homofóbico (disse, sem saber que estava sendo gravado, que Pelotas era um pólo exportador de veados). Houve protestos isolados, mas nada comparado à gritaria que se viu nos últimos dias. As palavras de Noblat são um tapa na cara de uma boa parte da patrulha: “não importa o que se pensa, o que se diz, o que se faz, mas quem pensa, quem diz e quem faz”.  Ou seja, descer a lenha no Bolsonaro é fácil, já que ele foi feito um símbolo de tudo o que é ruim. “difícil é, discordando radicalmente de cada palavra dele, defender o seu direito de pensar e de dizer as maiores barbaridades”.

     

    Achei o artigo corajoso, direto e essencial. Ao afirmar que nossos entendimentos a respeito dos conceitos de liberdade e democracia são postos à prova quando deparamos com situações de intolerância e que é a capacidade de tolerar que dá a medida do nosso comprometimento com aqueles valores, Noblat foi direto no que, para mim, deve ser o centro da discussão: não se pode negar o direito de Bolsonaro defender suas idéias. Não se pode querer calar alguém, muito menos um representante do povo, em nome do “bem”.

     

    A posição de Bolsonaro a respeito dos homossexuais é completamente deplorável, mas deve ser combatida no campo das idéias, da argumentação, nunca cassando-lhe o direito de falar. Quem se sentir prejudicado por suas opiniões, deve buscar a reparação pelos meios próprios. Em um Congresso de tiriricas, Sarney, Barbalhos e Genoínos, ter opinião não pode ser, de modo algum, considerado falta de decoro.


    P.S.: este episódio provocou um momento histórico e emocionante na televisão brasileira, quando o jornalista Marcelo Tas, líder da bancada do CQC, exibiu foto de sua filha, estudante de Direito em Washington, dizendo que ela era gay e que ele tinha muito orgulho dela. Involuntariamente, Bolsonaro foi responsável por uma das mais belas manifestações de tolerância que eu já vi.

     

    Para ver os vídeos da entrevista de Bolsonaro e da declaração de Tas, clique  aqui



    Escrito por Bruno Rabello às 01h25
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