Desventuras no Vietnam - Parte III

 

 

Mesmo sem me sentir completamente disposto, não desisti de fazer o que tinha programado: ir para Sapa, no norte do país, sem aeroporto por perto, acessível por trem (8,5 horas de viagem) e de lá andar cerca de 12km, subindo e descendo montanhas para me hospedar na casa de uma família, passar com eles dois dias e uma noite e retornar, de trem, para Hanói.

Confesso que me diverti com a diversidade das reações das pessoas quando anunciei que pretendia fazer algo, digamos, menos convencional... Este “passeio” foi decidido no Laos e quando postei no facebook que estava indo para o norte do Vietnam e que ficaria hospedado na casa de uma família que pertencia a uma das diversas etnias minoritárias do país, recebi desde entusiásticas felicitações a avisos para tomar cuidado (??) e, ainda e principalmente, comentários no estilo “pode ser legal, mas não para mim”.

Antes de mais nada é preciso deixar bem claro que não sou um desbravador do mundo. Tudo o que fiz nesta viagem é feito sistematicamente por milhares de pessoas, inclusive este tipo de experiência e acomodação. A internet está aí para comprovar isso, a poucos cliques. Foi em um fórum do Trip Advisor a respeito de Sapa que me dei conta da existência da Pham, esta vietnamita da etnia Dao Vermelha que passou a diversificar suas receitas (de artesã e pequena agricultura) oferecendo visitas guiadas e hospedagem a turistas um pouco mais ousados. Ao mandar-lhe um e-mail solicitando seus serviços, ela respondeu que já estava ocupada na data que me servia e perguntou-me se eu toparia fazer o tour com sua irmã, que também falava inglês. Fechamos o preço (USD 180,00,  caríssimo para os padrões do país) e ela prometeu que haveria alguém me esperando na estação de trem de Lao Cai, o portão de entrada para Sapa, a apenas 2km da fronteira da China.


Senhora da etnia Dao Vermelha, cujas mulheres, geralmente, raspam suas sobrancelhas e sempre usam este chapéu.

Mesmo sabendo que março não era a época em que a região fica mais bonita – os campos de arroz estão no seu auge entre junho e agosto; em março, nada deles – acabei optando pelo norte do país e por esta “aventura” (em detrimento de cidades costeiras e charmosas, que mais combinam com uma viagem de casal).

Com medo de que minha indisposição piorasse, evitei comer qualquer coisa de diferente antes de pegar o trem, limitando-me a uma sopa e algumas latas de coca-cola. Na cabine do trem havia 6 camas, 3 em cada lado. Por sorte, meu lugar era na primeira cama, o que me permitia sair mais facilmente da cabine, caso precisasse sair correndo para o banheiro. E precisei.

A viagem não foi nada fácil. Milagrosamente, consegui dormir, mas acordei empapado de suor, mesmo estando sentindo frio quando me deitei. Precisei de usar o banheiro e tanto o “número um” quanto o “número dois” saíam em forma líquida. Cheguei a pensar que fosse desmaiar e acho mesmo que apaguei por alguns poucos segundos. Mas cheguei vivo e um pouco melhor na estação.

Como combinado, Lý estava me esperando, acompanhada por um motorista que nos conduziu até Sapa (cerca de 45 minutos) onde tomamos café e discutimos se valia a pena arriscar a caminhada. A opção era ir direto de carro para a casa de Pham, onde iria me hospedar. Dei uma de durão e decidi correr o risco da caminhada para desconfiança de Lý. O carro seguiria com a bagagem e eu carregaria apenas a câmera e uma mochila leve com água e algumas frutas. Assim, depois de uma caminhada rápida por Sapa para conhecer a cidade, começamos nossa trilha.

Tenho que dar o braço a torcer e admitir que foi mais difícil do que eu esperava. Não pela trilha em si, mas pelas minhas condições físicas. As dificuldades – especialmente a distância e o tempo (quase quatro horas de subidas e descidas), durante os quais Lý me perguntou mais de uma vez se eu tinha certeza de que realmente queria continuar ou se preferia pedir para alguém vir nos buscar – fizeram com que o final tivesse um gosto especial de vitória. Depois de passar por alguns vilarejos, cruzando com pessoas de outras etnias, cada uma delas vestida com suas roupas típicas, chegamos até a casa de Pham.


Ly, minha guia. Ao fundo, os campos de arroz, vazios em março.

A casa – um pouco isolada do restante da vila, em um morro (mais um!) era simples para os nossos padrões, mas bem melhor que a maioria das da região. Grande parte construída de madeira, mas com paredes de alvenaria, tinha dois pisos.

Ao centro, a casa em que fiquei hospedado.

No andar inferior, de terra batida, ficavam o quarto do casal (onde também dormia o bebê), a cozinha, a copa e o banheiro (sim, para o meu alivio, um banheiro bem decente, que foi muito usado por mim!). Eu fui acomodado no andar de cima, em um quarto amplo, com um confortável colchão fazendo as vezes de cama.

Vista parcial do primeiro piso da casa. Ao fundo, os banheiros. À direita, ficava a cozinha. À esquerda, a mesa onde as refeições eram feitas. 

Todos da casa ficaram preocupados comigo. Não recusei o almoço que preparam para mim, para não soar como desfeita. O cansaço da longa caminhada em condições físicas longe do ideal somou-se ao cansaço acumulado por dias de viagem e eu pedi para me deitar um pouco. Dei uma boa cochilada e acordei um pouco melhor, mas ainda com o intestino atrapalhado e sem muita disposição.

O carinho e a preocupação de todos comigo foi comovente. E, seguindo o meu lema de que “quem está na chuva é para se molhar”, deixei-me ser cuidado por eles. Por “deixei-me ser cuidado” entenda-se: a) deitei apenas de cuecas em um tapete onde esfoliaram o meu corpo inteiro com um sachê de pano que continha ovo cozido quente, algumas ervas e um utensílio de prata, após o que me senti um pouco revigorado; b) aceitei receber soro na veia, em casa, apenas me certificando que a agulha era descartável; c) alimentei-me bem melhor no jantar, comendo de tudo que eles comiam.


Foto da mesa do jantar preparado para mim, mas que contou com muitos convidados.

Ao jantar, por sinal, outros familiares próximos compareceram e eu era, evidentemente, o centro das atenções. As famílias de Pham e de Ly (maridos e filhos), um irmão e a madrasta (segunda mulher do pai delas, já falecido), que trabalhava no posto de saúde mais próximo e que foi quem me aplicou o soro.

Acordei bem melhor no dia seguinte, muito embora não me dispus a pegar outra trilha (como o planejado inicialmente). Preferi ficar “em casa” e só aceitei fazer uma pequena caminhada até um “spa” local, onde tomei um banho de ervas no ofurô, usado, segundo Pham, principalmente pelas mulheres grávidas, prestes a dar luz.


No ofurô, quase que totalmente recuperado

Muitos podem duvidar do que eu vou falar, mas agradeço por ter passado por este perrengue e sido cuidado lá naquele fim de mundo, por pessoas que realmente estavam preocupadas comigo. Não senti medo em nenhum momento e acho que teria sido muito pior se eu estivesse sozinho no hotel de uma cidade grande como Hanói. Isso tudo sem falar que ao retornar recebi um e-mail de Pham perguntando como eu estava, carinho que não tem preço!

Em tempo: não é preciso se hospedar como eu me hospedei para conhecer a vila da etnia Dao Vermelha. Diversas pessoas chegam até ela de carro, tiram algumas fotos, compram alguns artesanatos e vão embora, como se pode ver da foto abaixo. Eu é que quis viver a experiência.