Ótima conversa, excelente comida: uma noite no Alice
O restaurante Alice, em Brasília, é freqüentemente apontado como um dos melhores da cidade (melhor francês do ano passado, segundo a Veja Brasília), mas até esta semana ainda não tinha tido a chance de conhecê-lo. Como iria ciceronear duas pessoas de muito bom gosto (os Humbertos Theodoros, Júnior e Neto), achei (na verdade, o Humberto Neto já queria ir lá) que era uma boa pedida e rumamos para a casa que fica na QI 17, do SHIS. Mesmo temendo que pudesse ser uma refeição um tanto pesada para o jantar, não resisti quando li “cassoulet” no cardápio e acabei pedindo a “feijoada” francesa, feita com embutidos, carne de pato e feijão branco, prato que não é muito comum de se achar nos cardápios dos restaurantes brasileiros. O prato (R$ 55,00, dentro da média dos bons restaurantes de Brasília) chegou servido numa caçarola (Le Creusete!) e estava impecável: as carnes macias e selecionadas, porção bastante farta e, o que foi o melhor e surpreendente, de muito fácil digestão. À deliciosa refeição somaram-se um bom vinho (escolhido por eles, que do assunto bem entendem) e uma conversa agradabilíssima. O Professor Humberto Theodoro Júnior é, provavelmente e dentre as pessoas que conheço, quem mais se encaixa na definição de “verdadeiro gentleman” – culto, elegante, educado, gentil – e o Humberto Neto, também nesse aspecto, promete honrar seu pai.
Escrito por Bruno Rabello às 15h41
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Indignação, de Philip Roth
Já há alguns anos, sempre que se anuncia o vencedor do prêmio Nobel de literatura, os críticos lamentam que Philip Roth tenha sido preterido. A julgar pelo que conheço de sua obra, eles têm razão. Indignação (Cia das Letras, 176 páginas) é mais um ótimo e compacto livro do premiado escritor americano de quem já li Complexo de Portnoy, O Animal Agonizante (que deu origem ao filme Fatal, com Penélope Cruz, sobre o qual escrevi aqui) e A Marca Humana. Sem querer contar muito (detesto aquelas orelhas que adiantam o que vai acontecer por volta da metade do livro), o livro é narrado em primeira pessoa por Marcus Messner, jovem judeu, filho único de um açougueiro kosher, que se torna a primeira pessoa de sua família a ingressar na faculdade, durante os primeiros anos da Guerra da Coréia. Embora sempre tenha sido aluno exemplar, responsável e trabalhador, vê seu pai cada vez mais preocupado com seu futuro e segurança (verdadeira paranóia) a ponto de, sentindo-se sufocado, pedir transferência de faculdade, ainda no primeiro ano, para uma faculdade bem distante de casa. Com a intenção de se dedicar apenas aos estudos e justificar o investimento da família, procura não se meter em fraternidades, bebedeiras e farras, tão comuns em universidades. No entanto, sua obstinação não é suficiente para mantê-lo longe de problemas; sua opção pelos estudos, trabalho e solidão e até mesmo seu relacionamento privado com uma outra aluna incomodam o campus. Por trás desta breve sinopse – que mais esconde que revela – se descortina um livro vigoroso, em que o modo de pensar dos EUA da década de 1950 e seu impacto sobre a vida privada (neste aspecto, lembrei-me de Revolutionary Road) são narrados de forma concisa e envolvente.
Escrito por Bruno Rabello às 15h38
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MST: crime no Brasil, festa em Paris... E nós pagando a conta!
Quem não se deixa cegar pelas convicções políticas, dificilmente não se indignou com as imagens amplamente exibidas pela TV na semana passada em que uma ala radical do MST (dou aqui o benefício da dúvida sobre a existência de uma ala menos radical) destruiu centenas de pés de laranja em uma fazenda no Estado de São Paulo (além de depredar seu maquinário e sede). Vale lembrar que não é a primeira vez que isso acontece (em 2006, sob a bandeira da Via Campesina, a vítima foi a Aracruz, com a destruição de laboratórios de pesquisa, comprometendo anos de trabalho). Dificilmente será a última. A tolerância do Poder Público para com a violação do direito de propriedade não se manifesta apenas na falta de repressão eficiente. A ausência de uma investigação séria sobre o modo de funcionamento do MST (notadamente a falta de empenho dos partidos governistas para a criação da CPI do Campo) e a impossibilidade jurídica (será??) de responsabilização da organização (destituída de personalidade jurídica) contribuem até mais para a sensação de insegurança e de impunidade que assustam o setor produtivo. Não se trata, já há algum tempo, de ataques a latifúndios improdutivos; as ações passaram a ser dirigidas ao próprio setor produtivo, demonizando o agro-negócio, tão importante para a economia do país, que nunca produziu tanto e a tão baixo custo (aliás, muitos dos “sem-terra” são recrutados nos centros urbanos e entendem patavina de campo). Por não reconhecer que o fortalecimento das liberdades e do direito de propriedade são condições mesmas dos avanços sociais, econômicos e políticos, o MST não os respeita. Pouco lhe importa que nossas leis e Constituição o garantam. A escolha de um Estado (São Paulo) e de um setor (laranjas) que não têm sido alvos prioritários do MST evidencia o componente político da ação: nada melhor que uma reação violenta do governo, de preferência com a criação de mártires, para desestabilizar eventual candidatura de José Serra. A situação é tanto mais grave porque é sabido que quem financia estas barbaridades acaba sendo o cidadão brasileiro que paga impostos e contribuições. Já se passou da hora de se escancarar os repasses feitos pelo Poder Público a este tipo de organização e talvez a melhor maneira de se fazer isso seja por meio de uma CPI. Em Paris, fiquei estarrecido ao sair da estação de Metro de Les Halles e me deparar com um “escritório” do MST em plena praça. Pessoal animado (a cidade faz bem à alma), bem humorado (quem pagava suas contas?), divulgando suas idéias sem ninguém a contraditá-las (o sonho de todo antidemocrata...).
Meu estômago embrulhou e foi a única foto que pensei em tirar!
Escrito por Bruno Rabello às 11h36
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