Escambo2 - A arte do desapego Alugar ou trocar de casas durante as férias não é, definitivamente, um programa para qualquer pessoa. Tenho diversos amigos que não se adaptariam jamais a este tipo de experiência, seja por preferirem o luxo impessoal de um hotel, seja por não terem disposição para encarar o que estes tipos de viagem demandam. De minha parte, esclareço desde já, sair para comprar café-da-manhã, lanches ou mesmo uma das refeições do dia é extremamente prazeroso, tarefas que encaro com indizível prazer, já que amplificam a minha experiência no estrangeiro e me aproximam do modus vivendi local. Ter que arrumar a cama (ou encontrá-la desarrumada, ao final do dia) é um detalhe pequeno perto da comodidade de desfrutar de um espaço bem maior do que um quarto. Luxo, para mim, é chegar de um longo passeio e ter uma sala, um jardim ou uma grande cozinha para tomar um vinho e degustar as iguarias que comprei no mercado local!
A casa em Biarritz, minha primeira experiência de troca, era bastante fiel ao anúncio do site (acessível aqui): grande (2 andares, 4 quartos, 3 banheiros, um lavabo), jardim e duas gatas. Localizada em parte residencial da cidade, entre dois lindos lagos (ótimos para uma corrida ou caminhada) com pequeno comércio próximo. O casal dono da casa nos esperou para receber, entregar as chaves, fazer algumas recomendações sobre correio, coleta seletiva de lixo, telefones de emergência, guias, alimentação dos felinos e nos entregar, sem nenhum constrangimento aparente, o seu lar. Iriam para uma casa no interior, a cerca de 150km. Eram nitidamente experientes no assunto “troca” e nos disseram já terem feito mais de 60, ao longo de 20 anos. Gentis, deixaram geladeira cheia, com garrafas de vinho, frutas , itens para café-da-manhã e um gateau basque, bolo típico da região. O que mais nos espantou foi o fato de não terem tomado quaisquer precauções com seus objetos pessoais. Absolutamente tudo estava ao nosso alcance, caso quiséssemos fuçar/usar/levar, evidência de que a base dos contratos de troca é a confiança em que o visitante irá cuidar de sua casa do mesmo jeito que você gostaria que cuidassem da sua. Imediatamente lembrei-me do caso de uma amiga que havia feito uma troca simultânea de sua segunda casa (também um apartamento no Rio), trancou um monte de coisa no quarto de empregadas e ao chegar no seu destino quase morreu de vergonha por encontrar todos os pertences dos parceiros à vista. Confesso que não sei como agiria se ao invés do apartamento do Rio tivesse cedido a minha casa. Não sei sequer se admitiria usá-la como objeto de troca, muito embora tenho que me declarar admirado pelo desapego e pela mentalidade mais aberta de quem disponibiliza o seu lar. Tendo a achar que estas pessoas são mais evoluídas espiritualmente que nosotros...
Categoria: Viagem
Escrito por Bruno Rabello às 01h48
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Escambo
Que viajar é uma das coisas que mais gosto no mundo e que viajo sempre que posso não são novidades para ninguém. Não deixa de ser curioso perceber que a cada nova empreitada muitos dos meus conceitos se modificam (“só não muda de idéia quem vive de cabeça vazia”, é meu lema), prova incontestável de que a viagem interior é tão ou mais importante do que o destino físico. No ano passado, resolvi fugir da hospedagem convencional e alugar uma casa no exterior. Riscos calculados, a opção revelou-se um acerto e uma agradabilíssima surpresa, tanto que repetimos no segundo semestre, com igual sucesso. Por ter pagado pela hospedagem, esperava e me sentia no direito de fazer certas exigências (roupas de cama novas, lugar limpíssimo) e, por outro lado, cumprir com outras (arcar com as altas taxas do pagamento, em espécie, para fora do Brasil, horário rígido de check-in e de check-out, etc.). Este ano, pela primeira vez, resolvi arriscar um tipo de viagem ainda mais radical: a troca de casas, idéia que me fascinou desde que assisti ao filme O Amor Não Tira Férias, com Cameron Diaz e Kate Winslet. Há uns dois anos, cadastrei o apartamento que possuímos no Rio em um site dedicado a isso, o www.homeforexchange.com . O negócio funciona assim: paga-se um pequena anuidade (USD 59,00) para anunciar um imóvel disponível para troca, coloca-se fotos, descreve-se suas principais características, o perfil do viajante (quantos são, o que faz) e o da vizinhança, o período que se propõe a viajar e, finalmente, os locais que interessam. Neste último campo, marquei a opção: “anywhere, surprise us”, mantendo abertas todas as possibilidades. A grande maioria das pessoas anuncia a sua própria casa e, por isso, só estão abertas a trocas simultâneas. É de se supor, portanto, que não é lá muito fácil combinar as disponibilidades, os interesses e a empatia de ambos os ofertantes. Como sempre me pus aberto a propostas e são raros os lugares que não tenho interesse em conhecer, minhas chances de fechar uma troca eram maiores. Ou assim eu imaginava. Mesmo possuindo a vantagem de poder receber a pessoa em um período diverso daquele que irei viajar (troca não simultânea, portanto), as respostas aos meus primeiros convites foram todas negativas (planejava uma viagem a Londres, onde hotéis são reconhecidamente caros). O site aconselha aos cadastrados a responderem as ofertas, ainda que para dizer “não, obrigado”. “Sem planos de conhecer o Brasil”, “férias já programadas para outro lugar, desculpa” foram as mensagens mais frequentes ao meu “What about Rio?”, seguido de loas à cidade maravilhosa. Passado um tempo, porém, comecei a receber ofertas com maior frequência. Algumas casas longe de centros urbanos no Canadá ou na Austrália me desanimavam, mas outras eram igualmente tentadoras e inusitadas (ou tentadoras por serem inusitadas) como uma em Zanzibar (que somente se inviabilizou porque o interessado acabou desistindo). O processo funciona um pouco como o início de um namoro. Do contato inicial feito pelo interessado, passando pela troca de e-mails para ver se há compatibilidade entre as casas e datas pretendidas (verdadeira paquera) até se assumir o compromisso e comprar as passagens. Decorridos mais de um ano do meu cadastro, ainda estava na seca. Cheguei a fechar um “negócio” com uma nova-iorquina que possui uma casa na Grécia. Ela veio para o Brasil, hospedou-se no nosso apartamento e eu fiquei com um “crédito”, a ser usado quando quiser. Ou melhor dizendo, quando puder, porque querer eu sempre quero. Aprendi a primeira lição: não aceitar trocas com futuro distante, pois o acúmulo de créditos não é interessante! Finalmente, uma proposta interessante e viável a curto prazo: uma casa em Biarritz, no sudoeste da França, mais precisamente naquela região conhecida como País Basco, fronteira da Espanha. Fui pesquisar no mapa-múndi e descobri que havia várias coisas interessantes por perto, o que começou a me entusiasmar. A casa parecia bastante razoável, embora nada luxuosa. Os interessados eram um casal de meia-idade, ele recém-aposentado da Air France, onde trabalhou como piloto. Queriam ir ao Rio em março, uma época em que seria fácil disponibilizar uma semana do apartamento (não era um período especialmente procurado para alugueis de temporada) e estavam abertos a uma troca não simultânea, cedendo-me sua casa em maio. Bati o martelo, satisfeito. Era exatamente isso que esperava do site: que me levasse a conhecer um lugar menos óbvio, de uma forma menos óbvia. Pouco depois, recebi nova proposta “européia” para troca não simultânea e outro acordo foi fechado, em condições bastante similares. Como ainda tinha alguns dias de férias disponíveis, foi a minha vez de disparar convites, colocando o meu apartamento disponível no futuro. Foram propostas feitas sem muita expectativa, na base do “se der, deu” e que foram aceitas em breve tempo (sinal do prestígio crescente do Brasil no exterior). Resultado disso tudo: 4 semanas na Europa, com apenas 2 noites em hotel. Viagem mais econômica, sem dúvida. Mas BEM mais do que isso: um tipo de viagem que tem muito mais a ver comigo. Pode dar errado? Sim, claro! Toda viagem tem chances grandes de dar uma zebra. Quisemos pagar para ver e cá estamos. Darei notícias.
Categoria: Viagem
Escrito por Bruno Rabello às 04h25
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Tarsila e Campanas
No final de março, quando estava no Rio, fui ao Centro Cultural Banco do Brasil no Rio com a intenção de visitar a exposição “Tarsila do Amaral: Percurso Afetivo”, saudada como a maior da artista modernista no Rio de Janeiro em muitos anos. Era um sábado no final da tarde e fiquei felizmente surpreso com as longas filas que tivemos que enfrentar, afinal o sucesso de uma exposição deste quilate me faz ter um pouco mais de esperança no Brasil. O Abaporu, que eu havia visto no MALBA de Buenos Aires no ano passado não estava lá, mas outros quadros importantes como Antropofagia e uma versão inacabada de A Negra estavam e gostei muito de ter a oportunidade de contemplá-los. 
O melhor daquele início de noite, contudo, foi outra exposição que também estava no CCBB: Anticorpos, com quase duzentos trabalhos dos irmãos Humberto e Fernando Campana, designers paulistas de enorme talento e, benzadeus, correspondente prestígio internacional. São diversos bancos, poltronas, cadeiras, biombos, mesas, painéis e objetos de decoração feitos com os mais inusitados materiais, quase sempre baratos (mesa feita de ralos de pia, cadeira feita de plástico bolha, de corda ou de piaçava, uma luva que serve de vaso), que nas mãos dos Campana se transformam em peças únicas, lúdicas e, quase sempre, sensacionais. Uma das mais famosas é a poltrona Banquete, feita de bichos de pelúcia: 
Muitas das peças eu já conhecia de fotos em jornais e revistas, mas poder vê-las reunidas em conjunto e acompanhadas de dezenas de outras menos badaladas (mas nem por isso menos arrojadas), deixa mais evidente a dimensão do talento destes paulistas. Infelizmente, não havia catálogo da exposição para venda, para poder ficar folheando em casa e me maravilhando com a inventividade daquelas cabeças. O CCBB/Brasília, por onde a exposição passou no ano passado, mantém na web uma página (acessível clicando AQUI) por onde é possível fazer um tour virtual. E, claro, há várias outras páginas disponíveis para quem quer conhecer o trabalho dos Campana. E comprovar que o design é uma verdadeira ARTE.
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 11h46
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A classe "c" veio ao "paraíso"
Obviamente o título deste post é uma brincadeira e uma provocação. Com um fundo de verdade, obviamente, mas ainda assim uma brincadeira e uma provocação. Por isso, antes que me chamem de classista, preconceituoso, arrogante, metido ou coisas do gênero, certifiquem-se de estarem no mode bom humor: on. Fiquei tentado a tocar no assunto por ter me deparado, nas últimas semanas, com algumas situações em que a ascensão social de uma grande parcela da população – merecidamente comemorada – vem tendo um impacto, nem sempre (ou quase nunca) positivo, nos hábitos cotidianos. Não estou reclamando do fato de que os aeroportos estão cada vez mais parecidos com rodoviárias. Acho superbacana que haja cada vez mais gente andando de avião, a não ser pelo fato de que o governo (leia-se: Infraero) não fez sua parte para elevar a níveis minimamente aceitáveis a qualidade dos serviços. Mas a Copa vem aí e depois as Olimpíadas e estes problemas serão todos solucionados em breve, não é mesmo?! Já a dificuldade para emitir passagens com milhas – o que atribuo em parte ao grande número de novos usuários e em parte maior ao mau-caratismo das companhias aéreas -, isso eu não curto, não! O mesmo raciocínio se aplica à dificuldade em conseguir marcar uma consulta pelo plano de saúde: se é óbvio que o número de usuários cresceu muito mais do que o número de médicos cadastrados (e de clínicas e hospitais), o faturamento das empresas do setor, obviamente, cresceu mais ainda. Ou alguém acredita que o número de procedimentos realizados cresceu mais do que o número de clientes? A piora absurda do trânsito é outro fator colateral que tem me tirado do sério, conseqüência clara e direta do aumento exponencial da frota, isto é, do fato de que hoje em dia há muito mais contribuinte de IPVA. Novamente minha implicância não se dirige àquele cidadão que com muito esforço conseguiu comprar seu primeiro carro. Vejo com ótimos olhos o pedreiro que trabalha na fazenda chegando para trabalhar sobre 4 rodas ou o jardineiro sobre 2. Culpo, novamente, o governo (em todas as esferas: federal, estadual e municipal) que não investiu minimamente em transporte público. Ou alguém acredita que ainda seremos servidos por uma linha de metrô descente em Belo Horizonte? Tenho a convicção de que, no estado em que o trânsito se encontra, várias pessoas prefeririam deixar seus carros na garagem (ou até abrir mão de tê-los), caso pudessem contar com um metrô abrangente. Mas em uma cidade onde até mesmo taxi é uma coisa difícil de conseguir, como não tirar o carro da garagem e deixar de dar sua contribuição diária aos engarrafamentos? Já reparam que a imensa maioria dos veículos transporta apenas uma pessoa? Cada vez mais raro pegar a estrada para Sete Lagoas sem enfrentar retenções de tráfego na rodovia. Resta o consolo de poder usar o iPhone e navegar pela internet durante estes longos períodos de tempo, onde todos, democraticamente, ficamos parados nas ruas e estradas. Quem costuma ir com freqüência ao cinema já deve ter notado que filmes adultos vêm sendo lançados em cópias dubladas. A explicação dada pelos exibidores é a de que pesquisas de opinião pública concluíram que parcela considerável do público prefere filmes dublados a filmes legendados. Quem gosta mesmo de cinema sabe que a dublagem, por melhor que seja, é sempre uma deturpação da obra original. Dublador nenhum do mundo é capaz de se aproximar do trabalho de preparação vocal de Marlon Brando em O Poderoso Chefão ou dos sotaques de Meryl Streep em qualquer um de seus desempenhos. Em excelente artigo intitulado Os malefícios da dublagem (acessível clicando AQUI), o crítico Pablo Villaça rebate todos os argumentos pró-dublagem. Os exibidores, porém, preferem subestimar este novo público, entregando-lhes o mais fácil. A curto prazo esta deve ser a opção mais lucrativa, valendo lembrar que dificilmente se perde dinheiro subestimando a inteligência alheia. Ao espectador que já sofria com a redução das salas dispostas a exibir filmes “alternativos” resta agora tomar cuidado para não entrar na roubada de pagar ingresso para ver filme mutilado (dublado). (Pequeno parêntesis: em países como França e Itália a exibição de filmes dublados nos cinemas sempre foi comum; isso, a meu ver, não desqualifica o argumento de que o Brasil, tradicionalmente avesso à dublagem no cinema, vem cedendo para agradar a um novo público avesso a legendas, ao invés de tentar acostumá-lo a elas). Se houvesse muitos cinemas, pouco me importaria que o filme fosse lançado nas duas versões. Livre arbítrio garantido. Mas não é este o caso. Fui ao teatro no último final de semana assistir O Libertino, de Eric-Emmanuel Schmitt. O personagem principal era o filósofo francês Diderot, envolvido na elaboração de sua enciclopédia e com imensas dificuldades em escrever sobre o verbete “Moral”. Convenhamos que o enredo – que passeia pelo iluminismo, pela filosofia e pela história – não é dos mais palatáveis ao grande (e novo) público. Perguntava-me, antes da peça começar, teatro mais para cheio do que para vazio, quantas pessoas ali sabiam (ou procuraram saber antes de se dirigir ao teatro) quem era Diderot. Para minha agradável surpresa, o espetáculo iniciou-se com um pequeno vídeo, em que o ator Juca de Oliveira dava uma pequena aula sobre a personagem e sobre o seu contexto histórico. Partia-se do pressuposto de que a platéia ignorava estes fatos e, neste sentido, era uma concessão ao público que, no entanto, não me pareceu ofensiva. Pelo menos não tanto quanto a inserção de expressões moderninhas no texto, que obviamente não constavam do original. Imagino que isso tenha sido obra do tradutor ou do adaptador, para ganhar a platéia. Felizmente, o texto e os atores eram de alto nível e o saldo foi bastante positivo. No mesmo dia, havia lido um artigo do Artur Xexeo n’O Globo em que ele, com muito bom humor, discorria sobre a televisão da “nova classe média” e perguntava onde foi parar a da antiga, cujas novelas eram mais glamourosas, o núcleo cômico era pobre, os mocinhos não eram suburbanos, trabalhadores ou jogadores de futebol. Até mesmo no mundo virtual a ascensão social desta parcela da população repercute. Que usuário de rede social – seja o facebook, o Instagram, o foursquare ou o Google+ - não ouviu alguém reclamar (ou reclamou) sobre a orkutização da sua comunidade virtual, querendo dizer, pura e simplesmente, que o ambiente era melhor antes de se tornar tão, digamos, pop? Observo, contudo, que este fenômeno quase, mas nem sempre, está relacionado à chegada de usuários que tiveram recente aumento do poder de consumo. Veja-se o caso do Instagram, por exemplo. Antes um nicho de pessoas que curtiam fotografia, hoje cada vez mais um espaço onde o que importa é o compartilhamento de fotos, independentemente do tema fotografado ou da qualidade. No mundo virtual, pelo menos, a solução é fácil, já que as ferramentas disponíveis permitem escolher quem seguir, quem é seu amigo, com quem quer dividir e assim manter o nosso “paraíso” reservado.
Escrito por Bruno Rabello às 12h45
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Leitura compartilhada
Não foi à toa que a época em que mais li em minha vida foi durante a faculdade, mais até do que na minha adolescência quando também li bastante. E não falo de leitura jurídica, mas de literatura mesmo. De certa forma, sacrifiquei minha formação acadêmica e tive que tirar o atraso depois de graduado, mas não guardo arrependimentos por ter me dedicado mais tempo a bons romances e biografias. O que quero destacar é que esta opção foi em grande parte motivada e incentivada por grandes amigos com os quais dividia o interesse e a paixão pelos livros. Sugeria vários, recebia dicas valiosíssimas e discutíamos, apaixonadamente, sobre o que líamos. Cada vez menos encontro pessoas com as quais posso conversar sobre os livros que li. Talvez isso aconteça porque meus amigos têm lido menos. Talvez porque eu tenho lido menos ainda. Ou, ainda, porque temos lido coisas diferentes. Independentemente da causa, constato, pesaroso, que a troca de impressões sobre um livro tem sido uma experiência cada vez menos comum no meu cotidiano. Se a leitura é uma atividade que solitária, isso não significa que ela não possa ser compartilhada e, principalmente, otimizada por este compartilhamento. Esta “solidão” foi amenizada quando descobri no blog Livraiada (acessível clicando aqui) um espaço de interlocução interessante. O Maurilo Andreas, também responsável pelo delicioso Pastelzinho e leitor voraz, faz pequenas resenhas dos livros que lê e por conta delas li dois livros no último mês: Bartleby, O Escrivão, de Herman Melville (na verdade, um pequeno conto, em edição caprichada da Cosac & Naify) e a máquina de fazer espanhóis, de walter hugo mãe (título e autor propositadamente em minúsculas, como quis o autor). Gostei especialmente deste último, que conta a história de um barbeiro que aos 84 anos, após ficar viúvo, é levado para um asilo, onde relembra sua vida e, por conseqüência, a história recente de Portugal, ao mesmo tempo em que tenta se adaptar àquela nova e degradante situação. Escrito quase todo com letras minúsculas – inclusive os nomes próprios e primeiras palavras das frases – como que para ressaltar a oralidade da narrativa, o livro consegue nos envolver com a personagem principal - sujeito íntegro na maior parte de sua vida, mas com um pecado grava a expiar - e ao mesmo tempo retratar a alma e o complexo de inferioridade de um povo (o português) em relação ao restante da Europa. Isso não é pouca coisa e, merecidamente, o livro é um sucesso e o seu autor foi um dos nomes mais festejados na última Flip. Obrigado ao Maurilo, que me deu esta dica preciosa, ao Luciano e à Liana, com quem divido os prazeres de uma boa leitura há quase 20 anos, à Maria Teresa, que sempre costuma me presentear com livros e que recentemente me deu mais um para tentar amenizar o meu luto recente, à Sílvia Rubião, interlocutora constante. Com vocês, ler é ainda mais prazeroso.
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 18h25
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#TetecaFacts Escrito na noite de sexta-feira, 02.03, com o coração em pedaços: Quando eu a trouxe para a fazenda, ela era do tamanho de um porquinho da Índia. Tinha acabado de se separar do resto da ninhada e, comportamento atípico, estava arisca, sem querer ficar no meu colo. Ao chegarmos, mostrei aquele projetinho de cão para os filas. Ela entrou em pânico e, desde então e para minha felicidade, nunca mais quis sair do meu colo. Ela adorava correr atrás de sua bolinha. Melhor dizendo: as outras cachorras adoravam. O que ela sentia diante da bolinha era diferente, algo tão forte que a fazia se jogar na piscina para pegá-la – piscina da qual ela não conseguiria sair sem ajuda – e nadava com sua “tetéia” na boca. Quando eu jogava a “tetéia” longe e todas as cachorras saiam em disparada, ela perdia a corrida para as mais novas, mas acabava ficando com a bola, já que a tirava de dentro da boca de uma outra mais veloz ou mais leve. Ela queria mais e por isso levava a melhor. 
A primeira vez que ficou prenha, cerquei-a de cuidados que nem sempre dispensei às outras. Fez ultrassom para que soubéssemos o tamanho da ninhada e para minimizar os riscos de complicações. Mas quando entrou em trabalho de parto, as coisas se complicaram um pouco. Depois de uma madrugada inteira com mamãe ao seu lado e de vê-la exausta, sem parir nenhum filhotinho, convencemo-nos de que devíamos ir para Belo Horizonte (estávamos na fazenda). Fomos para o carro, mamãe no volante da Cherokee, eu no banco de trás com ela. Andamos menos de 2 quilômetros e a Branquinha nasceu em minhas mãos. Está conosco até hoje (ela e o Dunga, seu irmão de ninhada), com muitas das manias da mãe. Tivemos uma cadela fila que, por algum motivo, começou a se indispor com nossas fox (4 ou 5, dependendo da época). A culpa é sempre das fox que, apesar de bem menores, são atrevidas: rosnam e avançam. Houve algumas brigas e, por sorte, nenhuma das fox morreu (isso já havia acontecido antes, há muitos anos). Mas os ferimentos anunciavam uma tragédia iminente e tivemos que exilar a fila para fora do muro que cerca a casa. Uma noite, em que íamos ficar do lado de fora, resolvi sair com a Teteca, crente que comigo não haveria perigo. Cagada monumental: elas se atracaram, Teteca foi mordida no pescoço, corte grande, muito sangue. Quase morri de culpa, mas ela se recuperou bem. Seu nome “de verdade”, que constava dos registros do veterinário, era Bisteca. A Bisteca da Junia. Mas a gente sabia que ela era Teteca. Do Bruno. Criadas na fazenda, junto com os filas, disputando comida, sua delicadeza era impressionante. Sempre que recebia um pedaço de carne, pão ou ossinho, ela – ao contrário das outras que engoliam quase que sem mastigar – ia para outro cômodo, deitava-se e calmamente degustava a oferenda. Seu jeito de me fazer festa era encantador. Subia na “nossa” cama e, deitada, espichava braços e pernas, o que me lembrava um daqueles tapetes de couro de vaca. Eu pedia para ela se fazer de tapetinho e ela, entendo, se fazia. Obviamente cada um dos nossos cachorros tem uma personalidade e um jeito próprio, de modo que dizer que ela era muito diferente diz pouca coisa. Todos são. Mas só ela conversava comigo (por conversar digo dar vários latidinhos contínuos, uma espécie de “uouououou”, respondendo sempre que eu falava com ela), só ela sabia comportar-se maravilhosamente em BH ou no Rio e, como já disse, pulava na água atrás da bolinha. Era brava ou pelo menos gostava de nos mostrar isso. Assim que via o jardineiro da fazenda – que ia lá todos os dias – avançava e mirava a canela, para morder de verdade. Mas, segundo o próprio jardineiro, só fazia isso quando estávamos lá. Nos outros dias, ele trabalhava ao lado dela, sem ser incomodado. Antes dela, mamãe reinava soberana entre os cachorros: todos sempre gostaram mais dela do que de mim. Teteca foi a primeira a me escolher como dono e mamãe brincava chamando-a de falsa. Isso porque, na minha ausência, ela não desgrudava da mamãe. Mas depois que eu chegava, ela passava a ignorar seus chamados, sequer olhando mamãe. Há alguns anos, por conta de uma dermatite no ouvido, ela fez um exame de sangue e o resultado, totalmente inesperado, me aterrorizou: leishmaniose. Arrasado, eu tinha uma certeza: eu jamais iria admitir que ela, saudável, forte e feliz fosse sacrificada. Repetimos os exames e, para meu alívio, tinha sido um falso positivo. Depois do seu sumiço no réveillon de 2010/2011 – motivo para um post específico acessível clicando AQUI – ela passou a morar em BH. Isso é: ficar comigo entre domingo e 4a-feira, indo na 5a para a fazenda com mamãe e papai. Portou-se como se tivesse nascido para morar em apartamento: nunca fez xixi ou cocô dentro de casa, sempre esperando que eu a levasse na rua (as outras, quando iam, costumavam travar e davam um trabalho danado), onde andava sem coleira. Desde antes de se mudar de vez para BH, sempre que via a gente se arrumando na fazenda para voltar, ela percebia e ia para perto do carro. Se via uma brecha, se abuletava para dentro, até mesmo do porta-malas (a Pitucha, a bem da verdade, também faz isso). Uma das coisas que mais me partiam o coração era tirá-la do carro e deixá-la lá. Quando as cachorras estão amamentando é normal que elas fiquem bravas com a aproximação de uma outra. Teteca não era diferente, mas fazia uma exceção para a Branquinha (e vice-versa) sua primogênita. Achava lindo que mesmo depois de tantos anos elas se reconheciam como mãe e filha. Tinha índole de caçadora, típica da raça. Quando aparece um rato silvestre ou um gambá na casa todas ficam doidas. Teteca, no entanto, sempre preferiu bicho que “avoa” e não sossegava se visse um morcego dentro da casa (e via vários), saltando mais de um metro, como se fosse subir nas paredes. Apesar de ser uma fera – quase um pitbull, quando precisava – sempre foi um doce de paciente. Obviamente detestava ir ao veterinário, mas se submeteu estoica e comportadamente a todos os tratamentos, cirurgias e procedimentos. Nunca rosnou para médico ou enfermeiro, coisa comum entre a raça. Quando me via pegar um envelope com comprimidos, assentava-se esperando que eu enfiasse um deles em sua garganta, mesmo odiando aquilo. Sua oncologista me disse ter ficado impressionada com sua doçura, durante as sessões de quimioterapia a que se submeteu. Quero acreditar que fiz tudo o que podia como seu dono favorito, sem economizar e preservando sua qualidade de vida. Esta semana, contudo, ela estava muito incomodada. Tentava comer e tinha dificuldades para engolir, passou a noite mudando de lugar, sem achar posição na cama. Por conta de uma anemia forte, estava muito cansada e eu a carregava no colo para subir e descer escadas. Um curativo no pescoço de uma lesão difícil de cicatrizar (hemangioma que havia estourado) e o forte calor pioravam a situação. Chegou a fazer uma transfusão de sangue que lhe deixou um pouco mais animada, mas sem resolver o problema da alimentação. Hoje pela manhã regurgitou uma coisa espumosa, misto de saliva com sangue. Voltei com ela para a Clínica (onde já tinha estado todos os dias da semana) e nosso veterinário sugeriu uma endoscopia para se certificar da origem do problema. Ele apontava algumas hipóteses, algumas piores que outras. O procedimento era feito com anestesia geral e eu tomei a decisão bastante dolorosa: se o que ele encontrasse fosse muito ruim, autorizava que se “aprofundasse a anestesia” (eufemismo pouco é bobagem). Dei-lhe um beijo e entreguei-a no colo do veterinário. Tentei conversar com uma das recepcionistas da clínica, mas antes que as lágrimas começassem a descer, saí de lá. Liguei para mamãe que estava no Rio, mal conseguindo falar. Não precisava, na verdade, pois se alguém entendia o que eu estava sentindo, é ela. No início da tarde, recebo o telefonema do veterinário me contando o que encontrou. O prognóstico era muito ruim e a sobrevida seria à base de fortes analgésicos. (Re) autorizei e desabei no choro. Fui premiado com a capacidade de amar meus animais. Sei que, lamentavelmente, a maioria das pessoas não nasceu com este dom e por isso não conseguem entender o tanto que estou doído hoje. Se existir um céu, um outro lugar depois daqui, eu queria que fosse cheio de cães. Lá eu reencontraria todos os que eu amei, amo e amarei e as pessoas que compartilham o que eu sinto. Hoje, é nisso que eu quero acreditar: que a Teteca está num lugar lindo, junto da Preta, da Samantha, da Tripiça, da Chimbica, do Rajá, da Dinda, da Aninha, da Buzunguinha, da Psiquitiu, da Jamanta, da Lara, da Lira, da Tosca, do Tupã, do Xangô, do Tovar, da Dina, da Única e do Duque.
Categoria: Política
Escrito por Bruno Rabello às 12h35
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E os favoritos são... Estou careca de saber que Oscar não é atestado de qualidade, que a cerimônia de premiação é insuportável para muita gente, que entra ano sai ano injustiças gritantes são cometidas e que a premiação está cada vez mais previsível. Mesmo assim, eu sempre me diverti com tudo aquilo e continuo a fazer força para ver o máximo de filmes possíveis antes do show começar. Este ano não foi diferente. Consegui assistir 9 dos 10 filmes concorrentes, conferir 17 das 20 performances, 5 dos 5 trabalhos de diretor e 10 dos 10 roteiros. Infelizmente, só vi 1 dos 5 filmes estrangeiros, categoria que sempre traz ótimas surpresas, e nenhum dos documentários (sempre excelentes, embora a lista de indicados deste ano tenha causado polêmica, com a exclusão do superestimado Senna). São 9 os indicados a “melhor filme” e normalmente só os que concorrem também a melhor diretor são tidos como sérios candidatos. Assim, estariam no páreo O Artista, A Invenção de Hugo Cabret, Meia-noite em Paris, Os Descendentes e A Árvore da Vida. Acontece que Histórias Cruzadas foi um enorme sucesso de bilheteria e 3 de seus atores emplacaram indicações, o que o coloca não apenas na briga, mas também, segundo muitos analistas, como a maior ameaça à consagração de O Artista . Uma eventual vitória de Histórias Cruzadas – filme apenas regular, que merece reprises ad nauseam nas sessões da tarde da vida – seria um enorme absurdo, daqueles para entrar para a história. Se for para perder, que perca para A Invenção de Hugo Cabret e Martin Scorsese, único caso em que não se poderá falar de injustiça. O star power de George Clooney é uma ameaça real ao coroamento de Jean Dujardin, mas torço para que a Academia reconheça a superioridade do trabalho do francês. Os outros concorrentes são meros figurantes na disputa. Entre as atrizes, a disputa está indefinida e a briga é boa entre Viola Davis (a melhor coisa de Histórias Cruzadas, com leve favoritismo) e Meryl Streep. Ambas estão excelentes e, entre elas, meu voto seria para Streep. Quem viu A Dama de Ferro não tem como discordar que é um de seus melhores trabalhos. Confesso que adoraria ver Glenn Close – 6a indicação, nunca laureada – surpreender e levar, finalmente, o seu troféu, mas as chances beiram a zero. Entre os atores coadjuvantes, Christopher Plummer merece o favoritismo. Ele está ótimo no papel do octogenário que “sai do armário” após ficar viúvo (Toda Forma de Amor, já lançado em DVD) e também em Millenium. Octavia Spencer ganhou quase tudo por Histórias Cruzadas, mas preferiria ver sua colega de elenco, Jessica Chastain (que estrelou nada menos que 7 filmes em 2011) levar o prêmio. Lembro, contudo, que esta categoria costuma surpreender. Michel Hazanavicius, o diretor e roteirista do filme, dificilmente sairá de mãos abanando, com mais chances de levar o primeiro (disputa com Scorsese), mas também um candidato forte para o segundo. Seu concorrente mais forte ao Oscar de roteiro original é justamente Woody Allen, meu favorito da categoria e que levou o prêmio do sindicato. É a melhor coisa de Meia-noite em Paris (e sua única chance real de ganhar um Oscar) filme que, segundo a crítica, voltou a mostrar Allen (15 indicações por roteiro, 2 vitórias; 7 indicações por direç ão, 1 vitória, 1 indicação por ator)em plena forma (para mim, fã confesso, ele sempre esteve). Para roteiro adaptado, o favorito é, imerecidamente, Os Descendentes, trabalho pífio e capenga. Minha torcida é para George Clooney em Tudo Pelo Poder, filme bem superior, mas que não teve o mesmo reconhecimento. Também a categoria de melhor filme estrangeiro costuma apresentar surpresas. O franco favorito é o iraniano A Separação, também indicado ao prêmio de roteiro original. É um belo filme, superestimado em minha opinião, mas fica difícil opinar sem ter visto os outros. P.S.: Curioso que os dois cineastas mais identificados com Nova York (Allen e Scorsese) estejam disputando o Oscar de direção por filmes passados em Paris. Mais curioso ainda que eles devem perder o prêmio para um francês, por um filme passado nos EUA (Hazanavicius, O Artista)! P.S.2: O Artista e A Invenção de Hugo Cabret (que deve faturar vários prêmios técnicos) são lindas declarações de amor ao cinema, as melhores desde o vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro em 1988, Cinema Paradiso. Natural que a indústria goste de ver sua arte celebrada. P.S.3: A campanha que o estúdio fez em favor de Meryl Streep foi bastante inteligente ao lembrar que, apesar de já premiada duas vezes e frequentemente indicada (é sua 17a indicação!), a última vez que Streep ganhou um Oscar foi há quase 30 anos (melhor atriz por A Escolha de Sofia, em 1983) e já estaria passando da hora de se premiar novamente a maior atriz americana. Tomara que dê certo. P.S.4: Como diria Galvão Bueno, Sérgio Mendes e Carlinhos Brown são “o Brasil no Oscar 2012”. Eles concorrem por melhor canção original por Rio (filme que merecia ter sido indicado ao prêmio de melhor animação, mas não o foi). A categoria foi esvaziada e só uma outra música foi indicada (de Os Muppets). Mesmo assim, acho que “o Brasil” vai sair de mãos abanando...
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 15h49
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Cinefilia
Não sei se é culpa do trailer, do cartaz, da campanha publicitária, da burrice dos exibidores ou de tudo isso junto, mas A Invenção de Hugo Cabret, o mais novo filme do grande cineasta Martin Scorsese tem sido equivocadamente encarado como algo que ele não é: um filme infantil. Do contrário, como explicar que a grande maioria das cópias lançadas ou das sessões exibidas são da versão dublada (e, conseqüentemente, piorada) desta verdadeira obra-prima? Não que o filme não possa agradar crianças de todas as idades, mas certamente ele tem um potencial para seduzir ainda mais os adultos que gostam de cinema. Foi o que aconteceu comigo, que sai da sessão de Hugo, completamente encantado por este belíssimo filme. Poucas vezes se pode ver um uso tão inteligente da técnica 3D, em que ela é usada para ressaltar a beleza do enquadramentos, a profundidade de campo das cenas, e não por puro exibicionismo de efeitos especiais (estes, por sinal, discretíssimos e eficientes). É uma bela homenagem de um dos principais diretores da atualidade ao cinema e à sua História. Para quem não sabe, Scorsese é um dos principais batalhadores pela conservação da história do cinema e pela restauração de filmes antigos e conseguiu, com maestria, demonstrar em seu filme a importância de sua luta, de uma maneira que se encaixou organicamente com a história do menino órfão, que mora “entre as paredes” de uma estação de trem de Paris, consertando e mantendo seus relógios em pleno funcionamento. O filme é tecnicamente impecável, com destaque para alguns planos-seqüência (longas cenas em que a câmera acompanha a ação, passando por vários cenários, sem que haja um corte e que é uma marca do diretor), a já elogiada fotografia, a eficiente montagem (excepcional a cena de abertura em que as engrenagens de um relógio se fundem com as ruas de Paris), direção de arte e figurinos, todos merecedores do Oscar. Scorsese faz uma ponta como um fotógrafo, como que para demonstrar o imenso carinho por este filme. Não deixa de ser curioso observar que duas obras-primas (Hugo, 11 indicações e O Artista, 10 indicações) homenageando o cinema estejam disputando o prêmio máximo da indústria. E que um dos mais representativos diretores americanos tenha filmado em Paris, com o uso do 3D, sua declaração de amor ao ofício, enquanto que um diretor francês, até há pouco tempo desconhecido do grande público, tenha preferido homenagear o cinema americano, fazendo um filme mudo e em preto-e-branco. Em comum, o amor profundo e comovente à sétima arte. De minha parte, lamento o fato de que um empate seja impossível, pois ambos os filmes fazem jus a todas as láures e elogios. São obras imperdíveis e merecedoras de serem prestigiadas na tela grande, da sala escura de um cinema. 
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 06h23
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Da burrice da indústria fonográfica Desde adolescente, sempre fui um consumidor voraz de discos. Freqüentava o centro da cidade para garimpar promoções nas Lojas Americanas, na finada Mesbla e em diversas lojinhas menores, deixando em todas elas parte substancial da minha mesada ou do meu pequeno salário (comecei a trabalhar aos 14 anos, no extinto e saudoso Vídeo Clube do Brasil, guiado pela minha paixão por filmes, divago). Adorava gravar fitas K-7 e gastava horas elaborando seqüencias harmonizadas ou inusitadas de músicas que eu dava de presente para namoradas, amigos e enchia as diversas caseboxes que se acumulavam no meu carro. Não sou hipócrita a ponto de dizer que meu hábito de comprar CDs se manteve intacto a partir do momento em que o download de músicas se tornou prática comum. Devo ter baixado muita música ao longo desta última década, período em que a indústria fonográfica esperneava e dizia-se agonizar, mas grande parte das músicas que baixava não estariam em CDs que compraria. Esta afirmação é importante para desmentir um mito que a indústria tenta sustentar: o de que todo e qualquer download significa um prejuízo. Por várias razões – entre elas, o fetiche do colecionador, que sente prazer em ter o objeto do desejo em mãos e também um senso ético (prestigiar o artista de que sou fã) – continuei comprando CDs, mesmo quando as músicas já estavam a apenas um clique de distância do meu HD, sem me custar nenhum centavo. Por incrível que possa parecer, só recentemente passou-se a ser possível fazer download legal (leia-se: pagando por isso) em Pindorama. Até há poucos meses, vivíamos o paradoxo de ser impossível se valer das vias “legais” para comprar música na internet. Quando li nos jornais que depois de anos de sucessivas quedas nas vendas, 2011 registrou um aumento, não pude deixar de pensar que as próprias gravadoras, por ineficiência tecnológica e falta de visão estratégica, possuem grande parcela de culpa nos resultados desastrosos dos últimos tempos. Como bem disse a Cora Rónai n’O Globo, “Em vez de fazer pesquisas que lhe permitam adaptar-se aos tempos e às novas tecnologias, a indústria prefere gastar montanhas de dinheiro fazendo lobby e patrocinando estudos suspeitos, que põem os seus prejuízos na casa dos milhões de dólares” [na verdade, tais estudos falam em bilhões de dólares de prejuízo e perda de centenas de milhares de empregos]. Agora começam a pipocar estudos em sentido contrário, afirmando que os prejuízos com a chamada “pirataria” não são tão grandes e que as indústrias de conteúdo estão bem, gerando empregos, produtos e, o que é mais importante, lucros (principalmente se comparadas com outros setores econômicos). Realmente, não vejo como duvidar de que a recuperação das vendas tenha muito mais relação com a oferta crescente do que com as campanhas “anti-pirataria” que se noticiam. Andei comprando alguns CDs inteiros na Apple Store Brasil e cheguei à conclusão que a experiência ainda deixa muito a desejar, principalmente por preguiça das gravadoras. Poder ter o CD desejado no HD (ou na “nuvem”) em poucos minutos, sem se levantar da cadeira, é um luxo (preço médio de USD 10,99), assim como comprar uma única faixa por USD 1,99. Não posso negar, contudo, a decepção por não ter em minhas mãos os encartes que costumam acompanhar o disco em sua forma física. Por que, não me canso de perguntar, negar ao consumidor que se dispõe a pagar o que poderia obter de graça um arquivo (PDF, talvez) com a ficha técnica do disco, letras, etc.? Imagino que o custo disso para as gravadoras seja próximo do zero e assim reforço a minha constatação de que a burrice da indústria fonográfica se solidifica a cada dia. Senão, como justificar a falta de interesse em cativar e, perdoem-me o jargão, fidelizar este novo consumidor, oferecendo-lhe um mimo a custo (quase) zero? Sem falar que disponibilizar a ficha técnica e a arte completa do disco é um sinal de respeito a todos os artistas envolvidos (músicos, compositores, artistas gráficos, fotógrafos, etc.) e que vender o CD sem isso é vender o produto mutilado, disforme, capenga. Em resumo, estou disposto a pagar pelos CDs que poderia, pelo menos por enquanto, baixar gratuitamente da internet. Por isso, quero (exijo) ser tratado com respeito. Justo, não? P.S. Enquanto este post estava sendo gestado, deparei-me com esta piada no facebook. Se por um acaso eu desistir de continuar comprando (pelos motivos expostos acima) e vier a ser preso por download, já tenho a minha bandeira: "SE FORMOS PRESOS POR BAIXAR MÚSICAS, ESPERO QUE NOS SEPAREM POR GÊNERO MUSICAL"
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 10h30
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Mais filmes, incluindo uma obra-prima O roteiro de Os Descendentes foi adaptado a partir de um livro de mesmo nome que não li. Isso não serve como desculpas para o principal defeito do filme: uma série de situações implausíveis que acabam dificultando o envolvimento emocional do espectador. E o fato do personagem de George Clooney ter sido traído pela sua mulher não é, definitivamente, um destes acontecimentos absurdos, já que o ator abusa da canastrice na maior parte do filme, tendo apenas uma única boa cena a justificar sua indicação ao Oscar. É difícil aceitar que, vivendo uma situação tão dramática, o personagem de Clooney permita que o abestalhado namoradinho de sua filha esteja presente e participando de momentos familiares tão íntimos e doloridos. Convidar os amigos para um almoço para anunciar o desfecho trágico de uma situação também me pareceu tão inimaginável como os diálogos travados com o amante de sua mulher. Apesar disso, o filme tem seus atrativos, entre eles as locações. Não me recordo de ter visto em algum outro filme o Hawaii da maneira como ele é mostrado em Os Descendentes. Uma pena que a melhor atuação do filme não tenha sido lembrada pela Academia: Shailene Woodley, que faz a filha de Clooney, está excelente, em todas as cenas em que aparece e ajuda a sustentar o filme.  Histórias Cruzadas é um filme que abusa dos clichês e que tem no desempenho do elenco, especialmente Viola Davis (favorita ao Oscar), o seu ponto mais forte. A questão do racismo no sul dos EUA nos anos 50/60 já foi abordada em vários filmes, com diversos graus de contundência e pieguice. Neste filme, a originalidade estaria na abordagem do racismo pela ótica das empregadas domésticas negras, que além de cuidar das casas praticamente educam as crianças brancas cujas mães, sempre atarefadas com futilidades, praticamente não dispõem de tempo para tanto. E quando crescem passam a tratar suas babás com a mesma indiferença que as mães as tratavam. Além do excelente elenco, o trabalho de reconstrução de época (figurinos, direção de arte e fotografia) ajudam a tornar agradável a experiência de assisti-lo. O excesso de pieguismo (uma das cenas finais, em que uma criança chora junto à janela, é constrangedora) e de clichês (incluindo um câncer), infelizmente, transforma o que poderia ser um ótimo filme em um futuro programa a ser repisado ad nauseam nas sessões da tarde da vida. 
Nestes tempos estranhos, em que é rara a sessão de cinema ou de teatro que não é avacalhada pelo toque de um celular (e até mesmo por uma conversa em tom alto de um dos espectadores) e em que filmes mais antigos são relançados no cinema em versão 3D (Titanic, A Bela e a Fera, O Rei Leão, Guerra nas Estrelas), causa surpresa o sucesso de um filme em preto-e-branco, mudo, sem a participação de nenhum astro de primeira grandeza. Mas quem se arrisca a encarar a sessão, dificilmente se decepcionará. O Artista é um dos filmes mais encantadores dos últimos tempos, que nos apresenta um par de atores em estado de graça (além do novo astro Jean Dujardin, também Bérenice Béjo, ambos indicados ao Oscar), faz uma belíssima homenagem ao cinema americano e possui ao menos uma meia dúzia de seqüências antológicas. Com apenas 5 minutos de projeção, Jean Dujardin já deixa claro o porquê de ter faturado a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Globo de Ouro de melhor ator (o que o torna favorito ao Oscar). No papel de um astro do cinema mudo que é surpreendido com o advento do cinema falado, seu desempenho é realmente merecedor de todos os prêmios do ano. É especialmente prazeroso ver o seu personagem atuar de maneira exagerada, sem economizar caras e bocas, nos filmes dentro do filme. E constatar as sutis diferenças quando ele representa o próprio ator George Valentin e quando atua como os personagens feitos por George Valentin. Destaque também para a fotografia com algumas tomadas memoráveis (lembro-me particularmente da cena em que o casal principal conversa no estúdio de cinema, enquanto há uma frenética movimentação de figurantes, daquela outra em que o ator principal admira a vitrine de uma loja e, ainda, daquela em que derrama um copo de água sobre uma mesa de vidro). Reparem, ainda, no formato da projeção – tipo standard – diferente do que estamos acostumados hoje em dia, mas igual ao da época em que o filme se passa e que os filmes dentro do filme são mostrados sempre de forma acelerada, como era antigamente. Igualmente genial a sacada do diretor/roteirista (Michel Hazanavicius, excelente) em uma das cenas finais, precedida pelo intertítulo “Bang” e a utilização, em duas pequenas passagens, do som e da voz dos atores. Sem falar, é claro, do cãozinho Uggie, um show à parte e que quase rouba todas as diversas cenas em que aparece. 
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 10h58
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Chico Não estava nos meus planos ir ao show do Chico Buarque. Estava viajando quando a turnê se iniciou em Belo Horizonte e não me preocupei em comprar ingressos para a temporada de quatro semanas no Rio. Aconteceu, porém, que eu passei a gostar cada vez mais do disco novo. É verdade que ele não possui nenhum clássico instantâneo, como as dezenas de obras-primas que o Chico já compôs (excetuando, talvez, a deliciosa Sou Eu, já gravada anteriormente com Diogo Nogueira), mas não há como negar, por outro lado, que todas as canções são sofisticadas, interessantes e se revelam um pouco mais a cada nova audição. Por isso eu já estava ficando pesaroso por não ter ingresso (esgotados) e a publicação de resenhas altamente elogiosas ao show aumentava esta sensação. Como tive que ir ao Rio no meio da semana, resolvi arriscar e fui sozinho para a porta do Vivo Rio e, para minha sorte, comprei uma meia-entrada. Mais sorte ainda tive ao apresentar minha carteira de estudante (vencida há seis meses, desde que eu defendi o Doutorado) e vê-la aceita! Apesar de estar sozinho (mais que em filmes ou peças, uma boa companhia é importantíssima em shows), acabei interagindo um pouco com as demais pessoas da mesa e não me senti incomodado com a situação. Onde que eu estava com a cabeça quando deixei passar a chance de comprar estes ingressos? Afinal, Chico não costuma dar o ar das graças nos palcos com muita frequência (a última vez foi há cinco anos) e sabe lá Deus quando (ou se) isso irá acontecer novamente. Além de tocar todas as músicas do disco novo, não faltaram clássicos (Geni e o Zepelim, Sob Medida, Anos Dourados, Choro Bandido, Futuros Amantes, Todo Sentimento, O Meu Amor, Terezinha, Bastidores, Desalento), músicas que adoro e nem são tão conhecidas (A Violeira, O Velho Francisco, De Volta ao Samba) e boas sacadas (como emendar Sou Eu com Teresa da Praia em um contagiante dueto com Wilson das Neves e Cálice com a nova letra feita pelo rapper Criolo). Econômico nas palavras, Chico quase não se dirigiu à platéia. Não foi preciso. Como o documentário sobre Tom Jobim já tinha deixado claro, não é preciso dizer nada diante de tantas músicas bonitas. Um grande show de um dos maiores artistas do nosso país. 
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 21h06
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Filmes, filmes e mais filmes Janeiro foi um bom mês para quem gosta de cinema. Vários filmes de qualidade e/ou renome em cartaz e algumas boas surpresas. 2 Coelhos. Diretor estreante em longas metragem, Afonso Poyart fez um filme divertidíssimo, eletrizante, empolgante, bem costurado, com ótimos desempenhos (principalmente dos atores menos conhecidos) e que faz excelente uso de intervenções gráficas. Nada fica a dever a Tarantino ou Guy Ritchie, duas claras inspirações deste trabalho. 
A Separação. Badaladíssimo filme iraniano que vem sendo apontado como franco favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Talvez por esperar muito ou por imaginar um filme completamente diferente, saí do cinema com certa estranheza. Mas é sem dúvida nenhuma um filme muito bom, tocante, diferente da maioria dos filmes iranianos que chegam até nós, já que nos apresenta a classe média iraniana (e não só a extrema pobreza, como costuma acontecer com os filmes daquele país), com dilemas universais, que facilitam nossa identificação. Emociona sem ser melodramático, para o que muito contribui os excelentes atores e, principalmente, o roteiro. 
Steven Spielberg lançou dois filmes neste início de ano. O Cavalo de Guerra, embora conte com algumas sequências belíssimas, não me convenceu. Longo, artificial e tedioso, com personagens que são um buraco de negro de carisma, é um dos piores trabalhos do diretor. Já As Aventuras de Tintin – O Segredo do Licorne (não entendo porque não traduziram Unicorn por Unicórnio... Será que o Acordo Ortográfico aboliu esta palavra?) nos mostra um Spielberg em forma, com seqüências dignas das melhores de Indiana Jones, bom uso das técnicas de caption motion e do 3D. 
O Espião Que Sabia Demais (péssimo título nacional para Tinker, Taylor, Soldier, Spy) é um filme de espionagem, com pouca ação (uma espécie de anti-Missão Impossível), em que muita coisa fica apenas subentendida, o que acaba afastando boa parte do público. Poucas vezes vi tanta gente abandonar a sessão no meio e isso, podem acreditar, é um defeito mais da platéia do que do filme. Quem consegue se concentrar por um par de horas certamente irá se envolver na trama e admirar o trabalho do excelente elenco. Gary Oldman, elogiadíssimo, foi indicado ao Oscar, roubando – injustamente, para mim – a vaga que era tida como de Leonardo DiCaprio (por J. Edgar). 
O documentário A Música Segundo Tom Jobim consegue uma façanha: criar, sem nenhum depoimento, narração ou entrevista, mas apenas com as canções de Tom e imagens, um todo orgânico, que nunca é cansativo. Assisti em uma sessão lotada, em Copacabana, e o público aplaudiu ao final. Precisa dizer mais? 
J. Edgar. O novo trabalho do octogenário Clint Eastwood (diretor) recebeu críticas mornas e não teve, ao contrário do esperado, sucesso na temporada de prêmios. Mas é uma biografia muito interessante, sobre um personagem polêmico, do qual muito se especula e pouco se tem certeza (especialmente sobre sua sexualidade e seus arquivos). Diretor do FBI durante o governo de 8 presidentes, supostamente tendo se mantido no cargo às custas de dossiês secretos, obtidos por meios ilegais, J. Edgar Hoover também foi o responsável pela introdução da ciência nas investigações criminais (inclusive a identificação datiloscópica). Leonardo DiCaprio em mais um belo desempenho, que não foi prejudicado pelo controvertido trabalho de maquiagem (na verdade, a maquiagem de DiCaprio até me agradou ao atenuar sua cara de menino e fazê-lo ficar parecido com Philip Seymour Hoffman; a dos outros atores era realmente péssima). 
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 19h44
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Repas
Fui conhecer o Parque das Ruínas (post anterior) motivado por uma peça bastante elogiada que eu ainda não tinha conferido: Ato de Comunhão, monólogo do argentino Lautaro Vilo, baseado na história real do engenheiro alemão Armim Meiwes, que chocou o mundo há pouco tempo. Para quem não se lembra, Armim era freqüentador de um site na internet (algo como Canibal Café) e postou um anúncio procurando por uma pessoa disposta a ser por ele comida. Recebeu uma resposta, preparou o encontro e consumiu o ato, registrando tudo em filme. Posteriormente, foi levado a julgamento, gerando uma grande discussão jurídica, já que a defesa se baseou na concordância da suposta “vítima” para tentar descaracterizar a acusação de homicídio. No monólogo, Gilberto Grawonski (merecidamente indicado ao Shell de melhor ator em 2011) narra, em apenas 55 minutos, três episódios da vida do Canibal de Rotemburg: seu aniversário de oito anos, o velório de sua mãe e o encontro com Bernd Jürgen Brandes, a pessoa que respondeu ao seu convite, oferecendo-se para ser devorada. Como não poderia deixar de ser, a peça provoca reações diversas nas pessoas, dentre as quais não se inclui a indiferença. Fazendo bom usos de alguns recursos de multimídia como a projeção de vídeos nas paredes laterais, a peça é simultaneamente repugnante e envolvente. Sem pretender explicar o inexplicável, a peça – baseada na entrevista concedida pelo canibal – lança algumas luzes sobre sua complexa personalidade, prestando-se a múltiplas interpretações. 
Teatro de alto nível, para pessoas de fino gosto e estômago forte.
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 21h03
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Quebradas cariocas Janeiro não é o mês que eu mais gosto de estar no Rio. Reconheço o frisson que o verão carioca provoca nos nativos e nos turistas, mas as praias sempre lotadas, o engarrafamento nas caminhadas pelo calçadão, as filas em bares e restaurantes, acabam me obrigando a procurar programas diferentes. Então eu constato, com imensa felicidade, que a cidade não se cansa de me surpreender. Que o Rio ainda cause surpresas a mim – que tenho meu cantinho por lá e que a visito regularmente desde os 16 anos – não deixa de ser, por si só, algo surpreendente. Senão, como explicar que eu desconhecesse até semana passada a existência do Parque das Ruínas? Localizado em uma das ladeiras do pitoresco bairro de Santa Teresa, o Parque das Ruínas é o que restou de um antigo palacete (Palacete Murtinho Nobre), que foi um dos pontos mais efervescentes da vida cultural da cidade, residência de Laurinda Santos Lobo, milionária e mecenas que fez de lá um centro de encontros da intelectualidade carioca, até sua morte em 1946. O casarão de três andares, em ruínas, foi transformado em um Centro Cultural que abriga um museu e um teatro. Tijolos aparentes se misturam a estruturas metálicas e de vidro, com um resultado arquitetônico bastante feliz. O principal chamariz para o público, no entanto, é a belíssima vista. Olhando para um lado, se vê o centro da cidade, com o relógio da Central do Brasil, a Catedral Metropolitana e os Arcos da Lapa. Para outro, a Ponte Rio-Niterói, a pista do Aeroporto Santos Dumont e a Marina da Glória, emolduradas pela belíssima Baía de Guanabara, pelo Pão de Açúcar e abençoadas pelo Corcovado. 



Já da existência dos mirantes do Parque Nacional da Tijuca, na estrada que conduz ao Alto da Boa Vista, eu tinha ciência e inclusive já tinha passado por eles de carro. Mas sempre evitei andar por lá pela fama de lugar perigoso para turistas. Hoje em dia, com a criminalidade em queda e os morros pacificados, me garantiram que os riscos eram quase inexistentes e, para fugir da orla lotada, decidi encarar. Tomei um taxi e pedi que ele me deixasse perto da Vista Chinesa, saltei cerca de um quilômetro antes. Obviamente é possível fazer este passeio de carro, mas se você tem condições físicas para uma caminhada, não deve perder a chance de andar por aquela estrada. É uma caminhada que exige mais disposição do que preparo, por se tratar de uma subida (e, na volta, de uma descida) relativamente íngreme. A sensação de andar cercado pela Mata Atlântica, protegido por ela do sol e do calor inclementes, no meio de jaqueiras carregadas, ajuda a dar ânimo. A chegada ao mirante da Vista Chinesa faz você se sentir recompensado por todo o esforço. 

Trata-se de um mirante espetacular, onde foi construída uma estrutura (argamassa imitando bambu) que lembra um pagode chinês. A vista da cidade impressiona até as retinas acostumadas com muita beleza. 
Avançando por mais um quilômetro estrada acima, outro ângulo da cidade, no ponto que ficou conhecido como Mesa do Imperador e que era um local preparado para servir como ponto de repouso nos freqüentes passeios da família imperial. Para descer,confiantes de que “para baixo todo santo ajuda”, preferimos dispensar alguns taxis vazios que por nós passaram. Sei que existe uma trilha pela floresta, mas preferimos não arriscar e seguimos pelo caminho asfaltado. Caminhada longa, na qual dispensamos um refresco em uma cachoeira (fica para uma próxima), mas, sem dúvida nenhuma, recompensadora. 
Eu, que havia chegado de São Francisco questionando minha convicção de ser o Rio a cidade mais bela do mundo, precisava apenas de um olhar menos óbvio sobre ele para espairecer quaisquer dúvidas.
Categoria: Viagem
Escrito por Bruno Rabello às 20h27
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Uma lágrima
Para Daniel Piza, jornalista cultural, comentarista esportivo, colunista político, escritor de vários livros, amante de literatura, artes plásticas, cinema, música, futebol. Por mais estranho que possa parecer sentir a morte de um desconhecido, foi com imensa tristeza que recebi a notícia da morte de Daniel Piza, aos 41 anos, vítima de um AVC. Eu comecei a acompanhá-lo por volta de 1996/97 (e nunca mais parei) quando ele escrevia sua coluna na Gazeta Mercantil e eu havia acabado de ficar “órfão” do Paulo Francis, de quem, assim como eu, Piza era um grande admirador. Ainda nesta época, enviei-lhe um e-mail, falando sobre a falta que o Francis fazia e qual não foi minha surpresa ao receber uma simpática resposta. Adorava a história que circulava a respeito de sua demissão sumária da Folha de São Paulo, após cometer um equívoco bobo (escreveu algo sobre o enforcamento de Jesus Cristo o que motivou, no dia seguinte, o mais ridículo “erramos” da história do jornalismo, informando que “ao contrário do que foi dito ontem, Jesus Cristo foi crucificado e não enforcado”). Quando Piza saiu da Gazeta (acho que enquanto ela ainda era um jornal decente), passei a acompanhar seus escritos na sua página da internet e, posteriormente, a comprar o Estado de S. Paulo com a finalidade primordial de ler sua excelente coluna dominical. Embora seu estilo fosse completamente diferente do de Francis – Piza jamais me pareceu agressivo, em suas críticas –, fato é que ele acabou ocupando um lugar muito especial em minha vida: o de me servir de norte na descoberta de livros, filmes, músicas e obras de arte e, mais ainda, aguçar meu senso crítico. Muito do pouco que sei sobre estas coisas, aprendi com ele. Saber que em 2012 ele iria morar em Nova York, um de seus sonhos, e que tal experiência iria enriquecer ainda mais os seus milhares de leitores torna sua partida ainda mais doída. Saudades de um "Diário da Corte" que não chegou a existir.
Formado em Direito pela USP, Piza se destacou mesmo foi no jornalismo, não apenas o cultural, já que escrevia semanalmente sobre o futebol (esporte a que ele se referia como ludopédio). O seu currículo – graduado em Direito, apaixonado por cultura, amante de esportes, ganhando a vida fora do meio jurídico, reconhecido como bom profissional, grande frasista (adoro seus “aforismos sem juízo”), destaque incontestável de sua geração, com espaço em um jornal de grande circulação para se manifestar livremente –, tenho que confessar, me fazia frequentemente pensar em como gostaria de viver sua vida. O país – que lhe dava mil e uma razões para ele não se ufanar – vai sentir falta de alguém que reafirmava sempre que leitura é uma boa diversão, que música clássica não é uma coisa chata, que ser bom de bola não exclui ser estudioso, que uma formação humanista é ainda maior se compreender uma boa compreensão das ciências naturais. Eu, vou sentir falta do jornalista de que mais gostava e a quem eu deixo, na singela forma deste post, o meu “muito obrigado”. 
Categoria: cultura
Escrito por Bruno Rabello às 19h05
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